29 de outubro de 2013

Para ler: Vida e Morte do Rei João

Vou ensinar a tristeza a ter orgulho, que a dor é altiva e ao sofredor faz digno. Os reis que me procurem nos domínios da minha grande dor. Tão grande ela é, que só poderá ter como suporte a imensidão da terra. Aqui me fico; com tal dor não me sinto em abandono; venham curvar-se os reis ante o meu trono.
Essa não é uma das mais conhecidas peças de Shakespeare e não é fácil encontrá-la traduzida – depois de muito procurar, acabei descobrindo-a em uma antologia dos dramas históricos do bardo, numa edição de preço bem salgado, motivo pelo qual me escarrapachei no chão e li na livraria mesmo. Afinal, considerando que eu tenho em outras edições pelo menos metade do que tinha na antologia, não valia tanto a pena assim o investimento...

Eu tenho fé que daqui para 2016, com o aniversário de 400 anos da morte de Shakespeare, as editoras brasileiras de livros de bolso terão publicado novas traduções de todas as peças do homem, de forma que possa eu completar afinal minha coleção e riscar da minha lista de ‘coisas a fazer antes de morrer’ o item ‘ler todas as peças de Shakespeare’.

Enfim, Vida e Morte do Rei João se apóia numa tríade de sangue real: o rei João, obviamente, irmão de Ricardo Coração de Leão – aquele que conhecemos das aulas de História como ‘João Sem Terra’, forçado a assinar a Magna Carta em 1215; o príncipe herdeiro, Arthur e o bastardo Faulconbridge.

João usurpou o trono e boa parte da peça é uma constante batalha para legitimar sua coroa. O principal apoio de João é sua mãe, a rainha Eleanor, e sua principal detratora é sua cunhada, Lady Constance, que busca de todas as formas colocar o angélico príncipe Arthur no trono.

Arthur não passa, contudo, de uma marionete. Da mãe, do trono francês, do próprio tio. Ele não é necessariamente tolo, mas sim gentil em demasia, uma qualidade não usualmente encontrada em soberanos, especialmente para um reino tão acostumado às batalhas quanto a Inglaterra desse período.

João, por sua vez, é um fanfarrão. Ele também não é um tolo, mas é indeciso e fraco, sem qualquer carisma junto ao povo ou seus barões.

Assim é que quem de fato rouba a cena é Faulconbridge, bastardo do Rei Ricardo, dos três, aquele que tinha mais perfil para o trono e o com menos possibilidade de alcançá-lo. Faulconbridge é carismático, astuto, um bom guerreiro e leal ao seu país. Há nele qualquer coisa que faz lembrar o príncipe Hal – tanto em sua versão mais jovem e faceira, quanto no rei inspirador das batalhas de Azincourt.

Acredita-se que essa tenha sido uma das primeiras peças de Shakespeare, escrita por volta de 1590. Embora seja um drama histórico inspirado em fatos reais, há muita, por assim dizer, licença poética – em especial em torno da liberalidade francesa de ir a guerra por um herdeiro inglês, ainda que Arthur, à época, tivesse 12 anos e sob influência dos franceses...

O mais curioso é que no final das contas, após ser traído pelos franceses, que assinaram um tratado com o rei João, Arthur voltou para a Inglaterra para ficar sob a guarda do tio, depois fugiu de novo, depois foi preso e depois... bem, depois, ele simplesmente desapareceu. Acredita-se que ele foi assassinado a mando do rei, mas a verdade é que nunca foi descoberto qual realmente foi o destino do jovem príncipe...


A Coruja


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