12 de setembro de 2013

Para ler: Macbeth

Rouco está o próprio corvo que crocita a chegada fatídica de Duncan à minha fortaleza; vinde, espíritos que os pensamentos espreitais de morte, tirai-me o sexo, cheia me deixando, da cabeça até aos pés, da mais terrível crueldade! Espessai-me todo o sangue; obstruí os acessos da consciência, porque batida alguma compungida da natureza sacudir não venha minha hórrida vontade, promovendo acordo entre ela e o ato; Ao feminino peito baixai-me, e fel bebei por leite, auxiliares do crime, de onde as vossas substâncias incorpóreas sempre se acham à espreita de desgraças deste mundo; Vem, noite espessa, e embuça-te no manto dos vapores do inferno mais sombrios, porque as feridas meu punhal agudo não veja que fizer, nem o céu possa espreitar através do escuro manto e gritar: "Pára! Pára!"
Das tragédias shakespearianas, essa talvez seja uma das mais complicadas, mais assombrosas, mais majestosas de todas. Macbeth é uma história de crime, de culpa, de loucura; uma peça maldita, de personagens emblemáticos, de corrupção, poder, bruxas e homens.

É uma obra-prima do bardo e da literatura como um todo. E é também um desafio para resenhar aqui, porque, francamente, o que posso falar sobre Macbeth que outros já não falaram?

Resumo básico da ópera: Macbeth, o protagonista da peça, escuta uma profecia que afirma que ele será rei. Ora, o atual rei está vivo e de boa saúde, o que significa que a profecia talvez demore um pouco para acontecer, de forma que ele decide tomar o destino nas próprias mãos e fazer-se rei, assassinando o atual soberano e todos os possíveis herdeiros do trono que venham a aparecer em seu caminho.

Até aí, tudo bem... ou não, porque de cara você já tem de se digladiar com a seguinte questão: se Macbeth não tivesse ouvido a profecia das três bruxas, teria ele assassinado o rei? Teria ele mesmo se tornado soberano? Seu comportamento seria alterado se não houvesse tal expectativa? O filho de Banquo ainda seria sucessor de Macbeth?

Não temos muito sobre o homem antes da profecia, mas para todos os efeitos, Macbeth não era particularmente maligno ou ambicioso até ouvi-la. Pelo contrário, a se considerar o respeito que o legítimo rei, Duncan, tem pelo homem e a forma como Macbeth se digladia com a idéia do crime que vai cometer/cometeu, ele tem um senso de honra, ele é um bom homem.

É um debate interessante esse, pensar se de toda maneira ele estava destinado a ser rei ou se apenas após ouvir a profecia que dizia que ele seria rei é que esse se tornou seu destino. Não há como responder com certeza a essa questão e esse é um dos inúmeros motivos pelos quais Macbeth é considerada uma das maiores tragédias do bardo.

Claro, você pode dizer que tudo foi culpa de Lady Macbeth, e para mim, sim, ela é a grande ‘vilã’ da história, se é que podemos falar em termos de mocinhos e vilões. Lady Macbeth é uma das mais poderosas personagens femininas de Shakespeare, trágica e desesperada. Alguns dizem que sua incapacidade de engravidar seria a raiz de sua ambição, mas não tenho certeza se essa seria a mensagem que o bardo iria querer passar – mesmo que a essa altura Elizabeth I já tivesse morrido e o rei James estivesse em seu lugar. Não a se considerar todas as outras personagens femininas que eles escreveu.

O monólogo em que ela se prepara para convencer o marido do que deve ser feito é uma das pérolas da coroa de solilóquios shakesperianos. Ela se despe de todos os atributos maternais, chama por espíritos assassinos, clama pelo cessar de qualquer sentido de compaixão. Ela toma uma decisão que sabe que não pode voltar atrás e o faz com uma empáfia e uma arrogância absolutas.

E depois se esvazia como se todo o seu espírito tivesse sido consumido por aquele grande momento, passando o resto da peça como um fantasma, presa dentro da própria cabeça, imersa em seus próprios pecados. É quase como se ela e o marido tivessem trocado de personalidade, como se ela tivesse injetado toda a sua força sobre ele e nada mais restado em si.

Eu não concordo com as adaptações da peça em que a mostram como uma harpia, um ser monstruoso e masculino em seus desígnios. Prefiro vê-la de forma mais sutil, prefiro pensar que tudo o que Lady Macbeth faz é pelo marido e não por si. Essa é parte de sua desgraça, porque depois de tudo, Macbeth não se preocupa sequer com sua morte: ela dá tudo de si e termina como um invólucro vazio.

A insanidade é o preço que ambos pagam em troca de terem abandonado qualquer tipo de moral em nome do poder. Ao meu ver, as bruxas plantam a idéia em suas mentes, mas é só através de seus crimes que aquele destino profetizado pode se cumprir. Que eles tenham forças para levar até o fim tais intentos são outros quinhentos.

Destino, livre arbítrio, ambição e poder são todos temas centrais da peça, que vão fundo na psique humana, naquilo que é de mais sombrio em sua natureza. Shakespeare está aqui em sua melhor forma.


A Coruja


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