6 de agosto de 2013

Desafio Literário 2013: Agosto - Vingança || Rei Rato

Tudo isso ficava a um milhão de quilômetros de distância do mundo cafona dos truques de mágica. Sua vida era serva de outro encantamento, um poder que tinha se esgueirado para dentro de sua cela na delegacia e o possuído, uma magia suja, crua, um encanto que fedia a mijo. Aquilo era vodu urbano, sustentado pelos sacrifícios dos atropelamentos, dos gatos e pessoas morrendo na pista, um I Ching de comes e bebes derramados e roubados, uma Cabala de sinais de trânsito.
Estou indecisa sobre minha opinião sobre esse livro, porque ele é algo bem diferente do que costumo ler. É fantasia, mas uma fantasia urbana que soa com as batidas da percussão de baladas eletrônicas; uma história suja de mentiras, traições, ratos e lixo, muitas vezes claustrofóbica, fétida, presa em esgotos e vãos de parede.

Miéville sabe muito bem entrecer uma trama de mito e fantasia com realidade – uma Londres que pulsa com seus contrastes de riqueza e miséria, onde cada palavra parece estar repleta de ritmo (aliás, parabéns para a tradução que soube trazer essa musicalidade para o português), e rivalidades sórdidas de séculos se confundem com batidas eletrônicas, suor e drogas.

Saul é um jovem aparentemente comum, que vive com seu pai nos subúrbios e às vezes tem suas diferenças com o velho, que acredita que o filho está desperdiçando seu potencial. Isso gera algumas discussões e com o tempo acabou por cavar um abismo entre pai e filho.

A história começa com Saul voltando para casa depois de acampar com um amigo. O pai está na sala assistindo TV – para evitar uma briga, o rapaz se enfia direto no quarto e é acordado no meio da noite com a polícia batendo à porta.

Há um corpo jogado no chão do lado de fora do prédio. O corpo é do pai de Saul e alguém empurrou o velho pela janela – enquanto ele dormia no quarto ao lado, completamente ignorante do que estava acontecendo.

Obviamente que o rapaz é o primeiro suspeito do crime, e a polícia o leva para a delegacia, onde Saul vai encontrar pela primeira vez um homem que se apresenta como Rei Rato, seu tio, irmão de sua falecida mãe.

Mais que isso, ele revela que Saul pertence à realeza num reino invisível que alcança do alto dos arranha-céus aos esgotos da cidade. Ele é um Rato e alguém está atrás dele, alguém que não hesitará em matar quem quer que esteja no caminho para dar cabo de Saul.

Alguém que entrou para a história e para a lenda como um exterminador de pestes e pragas. Ninguém mais, ninguém menos que... ok, não posso entregar quem é, vocês terão de ler por si e cair da cadeira como eu fiz quando percebi quem ele era...

Esse é o livro de estréia de Miéville, uma estréia soberba, violenta, fascinante. Rei Rato pode ser um livro de fantasia, mas ele vai muito além do fantástico com que estamos acostumados: é sujo, violento, marginal, épico e inteiramente humano.

Nota: 5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Rei Rato
Autor: China Miéville
Tradutor: Alexandre Mandarino
Editora: Tarja Editorial
Ano: 2011
Número de páginas: 400


A Coruja


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2 comentários:

  1. Putz, tinha esquecido que esse livro existia. Vou ter de ler agora, já que falaste tão bem dele! Do Miéville eu já li "Perdido Street Station" e "The Scar", e adorei os dois - mas depois confesso que tentei ler mais coisas dele e não consegui. O cara é fantástico, os mundos que ele cria e descreve são fora de série, tem um nível de detalhe incrível e a prosa dele consegue dar um senso mítico pra coisa toda...e no final dos dois livros eu realmente fiquei exausto, como se tivesse participado de uma partida de RPG interminável! Tentei ler "The City and the City" no ano passado, mas parei no começo...antes de ser arrastado pra mais um universo Mievillistico sem perspectivas de voltar! =P

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  2. Caramba! O mês mal começou e você já deu conta do seu livro do desafio! Eu escolhi Memorial de Maria Moura, mas estou com dificuldades de conseguir o livro, estou vendo que vou ter que rebolar para conseguir ler e resenhar a tempo, rsss

    Aproveitando o embalo, estou indicando seu blog ao selinho The Versatile Blogger Award.

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