17 de julho de 2013

Quem Conta um Conto (Julho): O Conto do Dé || Motivos


Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. E pela reação, Karl também não estava aceitando muito bem.

- Sheila, você tem certeza do que está dizendo?

Agora, era a moça que parecia não acreditar no que ouvia... mas eu tinha que perguntar. Em Nova Iorque eu já havia passado por uma situação parecida. Mas isso foi antes do circo. Antes de Karl.

- Você me ofende, com essa dúvida, Dan. Claro que tenho certeza! Fora os enjoos, estou atrasada mais de dois meses...

Um calafrio percorreu meu corpo. Se estivesse falando a verdade, tudo mudaria. As mãos dele encontraram as minhas no momento em que ele perguntou.

- E como você sabe que... é de um de nós dois?

- Não estive com mais ninguém... – Sheila hesitou um pouco, como se escolhesse as palavras. – Desde de Lyon, não estive com nenhum outro homem... Até Genebra.

A viagem entre estas cidades havia levado mais de um mês. Subitamente, uma pedra de gelo se alojou em meu estômago, mas tentei manter a calma.

- Sheila... fale com o Sr. Spoladore. Peça uma visita médica quando chegarmos à Berlim, por favor.
- Você sabe como é difícil conseguir um médico hoje em dia, Dan... – colocando a mão sobre o ventre, ela continuou – Mas falarei com ele. Se conseguir, será melhor para nós.


Não consegui dormir aquela noite. Sheila, grávida? E eu ou Karl como possíveis pais? Meu mundo estava ruindo.

- Ainda acordado, Dan?

Karl estava na cama, mas sei que ele havia dormido tanto quanto eu: nada.

- Estava pensando... Como chegamos a esta situação? Você lembra do que aconteceu em Genebra? Parece apenas um grande branco, quando tento lembrar.

- Para mim é a mesma coisa. Só o que lembro é que após a última apresentação, quando já estávamos no trem, começamos a beber e.... tomamos outras coisas também, não lembro exatamente o que.

Exatamente o que eu lembro. Depois seguimos para o quarto...

- E quando acordamos, Sheila estava na cama conosco. Nua. – Completei.

- E nenhum dos três falou sobre aquela noite desde então. Eu nem conseguia olhar para ela, Dan.

Fiquei quieto por alguns momentos, até que disse:

- Isso me deixa curioso. O que ela tem a ganhar com tudo isso?

- Como assim?

- Em Nova Iorque, antes de conhecer você, passei por algo parecido. Uma garota russa com quem estive algumas vezes, Ludmila, alegava estar grávida, e pediu muito dinheiro para evitar um escândalo. Como queria evitar que aquilo crescesse, meu pai pagou o que ela pediu, talvez um pouco a mais.

Ele pareceu surpreso com aquilo tudo, apesar de saber que minha família era rica. No circo, era o único que sabia disto... ou eu assim esperava.

- E o que aconteceu com ela?

- Foi encontrada morta menos de um mês depois. Tentou um aborto caseiro, e não conseguiu conter a hemorragia.

O barulho da noite foi a única coisa que ouvimos por um bom tempo, depois disso. Karl não gostava de lembrar que houveram mulheres antes dele, apesar de eu nunca ter escondido nada.

- E você acha que é isso que está acontecendo agora? O golpe da barriga?

- É uma opção. Se ela ouviu falar do dinheiro do meu pai, pode ser que seja. Mas como ela pode ter descoberto do dinheiro e não saber que fui deserdado? Não herdarei nem um centavo do meu pai.

- Não pense nisso. Não faz mais diferença, não temos como voltar. Vamos ao menos tentar dormir.

- Você tem razão... Obrigado, Karl.

Mesmo depois disso, ainda não consegui dormir.


Pela manhã, havíamos parado em Stuttgart. Todas as cidades alemãs me parecem iguais, hoje em dia. Logo iríamos descarregar o trem, então decidi esticar um pouco as pernas, antes que os outros acordem.

Os dias já estavam se tornando mais curtos de modo que, mesmo já passando das sete, ainda estava escuro. A temperatura já começava a cair e, para afastar o frio, comecei a caminhar pela estação, aproveitando para pensar um pouco sobre tudo aquilo.

Não era incomum que membros do elenco vez ou outra tivessem o caso. A própria Sheila, na época que entrou no circo, passou um bom tempo com o arremessador de facas. Como era mesmo o nome dele? Ah, não importa. Mas... por que eu e Karl? Não é exatamente segredo que estamos juntos, apesar de eu também gostar de mulheres. Mas alguma coisa não se encai...

Um grito me arrancou de meus pensamentos. Uma mulher, vindo do trem, gritando com tamanho horror e com tal volume, que foi perfeitamente audível de onde eu estava. Como eu tinha me afastado tanto, sem perceber? Corri. Não levou mais de um minuto até eu chegar, e o tempo todo os gritos continuaram, agora vindos de várias gargantas diferentes.

Um dos carros de equipamento, cercado por outros membros do elenco, era a causa dos gritos, e logo o cheiro acusou a razão. Lembro do cheiro de uma viagem que fiz quando era criança, a uma fazenda, quando o fazendeiro matou um carneiro: sangue e vísceras, tenho certeza. Abri caminho entre as pessoas, até que pude ver que as paredes e o teto do vagão estavam cobertas por sangue, ainda pingando. No chão, estava a fonte do sangue. O corpo estava estendido no chão, sem roupa alguma. Toda a carne abaixo das costelas até as coxas havia desaparecido. Não, desaparecido não é bem a palavra: agora eu podia identificar os pedaços de carne grudados no teto e paredes, assim como espalhados pelo chão.

Pude ouvir uma pessoa vomitar, e tive vontade de fazer o mesmo. Mas antes, me obriguei a olhar o rosto da vítima. Uma mulher bonita, de cabelos curtos e cacheados, nariz fino e lábios carnudos. Sheila.


Os interrogatórios estenderam-se noite adentro. Dolores, a acrobata que encontrou o corpo, estava em choque e passou o dia isolada.  Todas as acrobatas estavam muito abaladas, já que Sheila era uma delas. Todos no circo tiveram muitos problemas com o idioma, uma vez que apenas Karl falava alemão, e ninguém o viu durante todo o dia.

Além da polícia, a imprensa logo apareceu. Sr. Spoladore teve muito trabalho para manter os repórteres longe, uma vez que muitos membros do elenco estavam empolgados com a chance de aparecer nos jornais e no rádio. O velho mestre de picadeiro dizia que o circo não precisava daquele tipo de publicidade, mas muitos não deram ouvidos. Já eu, tinha meus motivos para querer ficar longe da imprensa. Mesmo que meu pai não queria mais me ver, eu prefiro evitar que notícias minhas cheguem aos ouvidos dele.

A polícia nos obrigou a permanecer na cidade até o final das investigações, sem apresentações. Nem mesmo com a crise que o país estava passando, a polícia iria deixar de fazer seu trabalho. Foram dias horríveis, no qual muitos dos nossos ficaram detidos por algum tempo. Quando eram liberados, muitos tinham hematomas, e se recusavam a falar com os demais, pedindo apenas para deixar aquele país horrível.
E aonde estava Karl? Se tivesse permanecido no circo, alguém já o teria visto. O que mais me incomodava é que estava se escondendo até de mim. Será que estava realmente escondendo alguma coisa?

Minhas dúvidas foram respondidas ao final da primeira semana: Karl havia sido preso quando tentava sair da cidade. A polícia o identificou como um criminoso foragido, culpado de agressão contra um membro do Partido Nacional Socialista. Segundo o policial, ambos lutaram, resultando no tal homem hospitalizado e Karl tornando-se um homem foragido. E agora, estavam colocando a culpa do suposto homicídio nele.

Muitos não queriam aceitar a prisão de Karl, mas o Sr. Spoladore nos fez seguir viagem o mais rápido possível, antes que algo de pior acontecesse. Eu nunca o perdoei por isso, mas decidi seguir viagem com o circo. E eu nunca ME perdoei por isso.


Seguindo viagem, decidi vasculhar as coisas de Sheila, em busca de uma explicação para aquela situação toda. Era alguma coisa, para manter minha cabeça ocupada, não pensar no que Karl estaria passando.

Para uma mulher aparentemente vaidosa, além de bonita, Sheila possuía poucas roupas e ainda menos adornos, além dos figurinos que usava nas apresentações, de modo que não tive muito o que vasculhar. Aparentemente, todas as posses da moça se resumiam a um único baú pequeno. O que ela fazia com o dinheiro que recebia como acrobata, afinal? Era de se esperar que ela tivesse mais do que isso.

Mas o que realmente me chamou a atenção foi um caderno, com capa de couro e bastante grosso. Parecia ser um diário, mas eu não consegui entender, já que estava escrito em russo. Ou algo que achei ser russo. Desde quando Sheila sabia russo? Achei que ela fosse irlandesa, pelo que me contaram dela. O que isso queria dizer?


A Grande Guerra acabou me forçando a voltar para a América e, para minha surpresa, meu pai me recebeu de braços abertos. Os anos afastados o fizeram rever sua decisão, e ele me aceitou como eu sou.
A última notícia que tive de Karl foi de que ele havia sido enviado para um dos campos de concentração logo no começo da guerra. Fiquei devastado pela notícia, mas a loucura da Guerra me forçou a superar. Durante anos não pensei mais sobre Karl ou o período que passei no circo, até que, alguns anos após a guerra, encontrei o tal caderno de Sheila.

Aquilo me levou de volta àqueles anos, e ao mistério que havia sido a morte da moça. Contratei um tradutor e, por isso, descobri que “Sheila” na verdade se chamava Svetlana, e que era nascida na Rússia, mas que era uma cigana. O mistério do dinheiro também foi esclarecido: ela enviava para a mãe, que vivia sozinha depois da morte da irmã mais velha. Soube que ela fazia planos para mudar-se com a mãe para Nova Iorque, para procurar o responsável pela morte da irmã.

Havia um recorte de jornal também, que eu não havia percebido antes: um obituário. Mesmo depois de tantos anos, reconheci o nome lá impresso, aquele da russa com quem eu havia tido um caso e que havia, supostamente, engravidado: Ludmila Burov. Desde o começo She... Svetlana estava atrás de mim? E para se vingar pela irmã? Então, por que ela simplesmente não me matou, se vingança era o seu objetivo?

E mais: como ela havia morrido?

O Bode


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