20 de julho de 2013

Para ler: Uma Dose Mortal

É como se a morte tivesse escolhido, da forma mais tosca, o homem errado. O grego misterioso, o banqueiro rico, o detetive famoso...como seria natural se um deles tivesse sido baleado.
Hercule Poirot está de volta, e, dessa vez, morrendo de medo da cadeira do dentista!

Devo dizer que o começo prosaico desse volume da tia Agatha me fez rir um bocado com os temores de Poirot, suando frio na cadeira do Doutor Morley... ao menos até que um crime seja cometido e o barulhinho da broca se torne apenas uma distração em meio as mil e uma teorias da conspiração que envolvem o suicídio-talvez-assassinato do dentista, o desaparecimento misterioso de uma boa senhora que talvez esteja metida com o serviço secreto britânico e a morte por overdose de anestésico de um grego chantagista.

Uma Dose Mortal não é uma das obras-primas de Christie, tendo algumas pontas meio soltas, perdendo-se às vezes entre as muitas visitas às testemunhas e tramas aparentemente paralelas.

A despeito disso, é um livro divertido: não apenas há um mundo de pistas falsas e pequenas encenações que podem ou não representar algo importante na busca pela verdade, como também temos um Poirot em situações cotidianas mas bem-humoradas, explorando a já conhecida vaidade do detetive belga.

O mais interessante do livro, contudo, talvez seja o contexto histórico em que a história se passa. Não há um ano específico em que localizar a narrativa, mas sabemos que ela ocorre durante ou logo após a Segunda Guerra e existe uma tensão forte entre o status quo que determina os rumos da Inglaterra e a juventude que tende ao fascismo ou comunismo.

Não é o centro da história (embora assim pareça durante boa parte da trama) e há qualquer coisa de maniqueísta na forma como a autora trabalha a questão, ainda que a posição de Poirot sobre essa tensão seja um tanto ambígua.

Há de se compreender que o livro foi primeiro publicado em 1940 – dificilmente Christie traria campeões comunistas para sua trama; Howard Raikes, que representa esse ponto de pressão é, com o perdão da palavra, um mero agitador com pouco potencial para fazer alguma mudança. Por outro lado, Frank Carter, que representa o lado fascista, é um personagem detestável e um perfeito palerma – não é à toa que ele se torna um dos principais suspeitos da história.

O título em inglês One, Two, Buckle My Shoe - que não tem absolutamente nada a ver com a tradução em português – vem de uma cantiga de ninar inglesa e sua cadência tem muito a ver com a história, incluindo o sentimento de Poirot ao final da história: um prato vazio, uma satisfação sem sentido, uma vida perdida à toa, à toa...


A Coruja


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