9 de julho de 2013

Para ler: O Oceano no Fim do Caminho

Eu adorava mitos. Não eram histórias para adultos e não eram histórias para crianças. Eram melhores que isso. Simplesmente eram.

As histórias para adultos nunca faziam sentido, e a ação nelas demorava muito a acontecer. Elas me davam a sensação de que havia segredos, segredos maçônicos, míticos, envolvendo a idade adulta. Por que os adultos não queriam ler sobre Nárnia, ilhas misteriosas, contrabandistas e fadas traiçoeiras?
Eu estava – como aparentemente, todo o resto do mundo, a julgar pela minha timeline no facebook e no twitter – em extrema expectativa por esse livro. É o primeiro romance adulto do Gaiman em quase dez anos, desde que Anansi Boys foi publicado e a tradução aqui no Brasil foi feita simultaneamente ao lançamento nos EUA.

Eu comprei a edição em inglês, autografada, porque eu sou ridícula e o Gaiman é dos meus autores favoritos o único que tenho certeza que consigo um autógrafo. Eu quase surtei quando ele chegou, tô ridiculamente feliz com o fato de que EU TENHO UM AUTÓGRAFO DO GAIMAN!!! Já posso morrer feliz.


Sem maiores comentários, meritíssimo. Exceto talvez para alertar que não sou, nem serei nunca uma crítica imparcial do Gaiman, então continuem lendo por sua própria conta e risco.

O universo de O Oceano no Fim do Caminho me soou extremamente familiar, inclusive pelas crenças que surgem ao longo da história. O que Lettie conta, por exemplo, sobre ter atravessado o oceano vinda do velho reino, soa como o background de Deuses Americanos, inclusive pelo status mítico das Hempstocks (que imediatamente me remeteram à idéia das Moiras) e do que está por trás da fachada de Ursula Monkton.

Depois eu vi uma entrevista do Gaiman em que ele basicamente assume que essas histórias se passam sim no mesmo plano, tocando-se tangencialmente de forma quase imperceptível para os que não são seus contumazes leitores.

Mas isso também não é particularmente importante. O que é importante é que, a despeito da expectativa que eu tinha em torno desse livro, ele me pegou de surpresa. Mais que isso, eu sinto que ele talvez me cause pesadelos agora que fechei sua última página.

Minha impressão de O Oceano no Fim do Caminho é de estar presa entre um estado onírico e o mundo real. Trata-se de um livro de fantasia, e uma fantasia sombria, mas ao mesmo tempo é uma história muito real, visceral em alguns momentos e embora eu seja uma fã do Gaiman, eu não esperava isso dele.

Gaiman trabalha o horror em muitas de suas obras, mas ele nunca tinha me atingido de forma tão física. Eu não esperava sentir o estômago revirar, os calafrios o horror de ver algo sendo enfiado por baixo das suas unhas, algo decrépito, sujo, revoltante. E foi isso que senti no capítulo do verme que o protagonista-narrador tira do pé – e que depois vai se revelar algo além do que se espera de um simples bicho do pé. Foi isso que senti na cena em que o pai, influenciado pela grande vilã da história, tenta matar o garoto. Foi isso que senti ao perceber que não havia escapatórias, que pouco a pouco o cerco contra ele ia se fechando mais e mais, sufocando-me da mesma maneira que o personagem sentia-se sufocado.

Ao mesmo tempo, a história tem uma... uma beleza melancólica. Um sentimento de nostalgia – inteiramente justificado, considerando que o narrador está contando a história ao retornar, adulto, ao mundo de sua infância, as lembranças de seu eu-de-sete-anos misturadas ao seu presente senso de perda. O adulto sabe que aquela casa, o jardim, o laboratório, aqueles caminhos em que se embrenhou quando criança já estavam com os dias contados, independentemente das criaturas de pesadelo que ele precisava enfrentar.

Comparado com os outros romances adultos do Gaiman, O Oceano no Fim do Caminho é uma leitura rápida, mais contida, mas nem por isso menos poderosa. É um livro maduro, agridoce, que mexe com sua cabeça e seu coração. É Gaiman em sua melhor forma, parte sonho, parte pesadelo, 100% humano. Para se apaixonar.


A Coruja


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2 comentários:

  1. Cara. Que COISA MAIS LINDA ESSA EDIÇÃO INGLESA!!! Pela foto parece ser capa dura e tudo. Adorei o "balde" de capa e lembrei de alguns momentos que ele aparece no livro. E ainda com o autógrafo do autor.PARABÉNS pela aquisição!
    Ahhhh, se as editoras daqui do Brasil fossem assim. Penso que tinham que ter mais cuidadosas com as edições dos livros.
    Adoro ler você. Vou voltar mais vezes.
    Abraços, Bruno.

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  2. Oi, Lu!
    Não tinha visto que tu já tinha escrito resenha, pra variar amei o livro, tive percepções bem pŕoximas das tuas. Impossível não amar esse cara.
    Vem cá onde foi que tu comprou essa preciosidade? Ainda tem?
    estrelinhas coloridas...

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