8 de junho de 2013

Para ler: Sinal e Ruído

A dor dentro de mim é um acúmulo sólido de ódio.

Raiva do meu corpo por me trair. Raiva do meu mundo, e dos meus sonhos, e da minha vida, por não durar para sempre.
D. Mãe gosta de repetir sempre uma frase: “da vida, só o que a gente tem certeza é a morte” – e eu me peguei pensando muito nessa afirmação enquanto lia Sinal e Ruído, que é toda ela uma história sobre a morte, mas também sobre aquilo que fazemos ao ter a certeza dessa morte.

Sim, sabemos quase que desde sempre que nossos passos nos levam inexoravelmente ao fim, mas de uma forma geral, não pensamos nesse fim e desperdiçamos uma vida inteira correndo atrás de coisas que mais para frente julgaremos supérfluas.

É o que ocorre com o protagonista dessa graphic novel, um diretor de cinema que descobre estar com câncer, e ter apenas alguns meses de vida. Não há o que fazer, o tratamento seria algo apenas paliativo e ele decide fugir dessa realidade e trabalhar com aquele que será seu último roteiro, o último trabalho de uma carreira, a obra que ele quer deixar como seu legado.

O roteiro é uma história sobre o fim do mundo, no final do ano de 999 d.C. – e isso faz ainda mais sentido dentro da história porque ela está acontecendo pouco antes da virada do milênio, numa das inúmeras ocasiões em que se falou sobre a possibilidade do apocalipse.

Enquanto trabalha naquele que há de ser seu último projeto, somos levados juntos ao protagonista a reconhecer que o mundo acaba todos os dias para alguém, o fim do mundo é o fim da nossa existência. Não há nada de tão catastrófico ou tormentoso: o mundo termina, como diria T. S. Elliot, não numa explosão, mas num sussurro.

O texto e a arte aqui se complementam maravilhosamente; Gaiman está soberbo no roteiro e o trabalho do McKean é exatamente aquilo que a história pede, realista, pungente. Se nada mais esses dois tivessem produzido, Sinal e Ruído poderia ser aquela história, aquele trabalho que marca um legado; uma obra-prima em meio a todo o ruído a que somos constantemente submetidos.


A Coruja


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Um comentário:

  1. Nossa, agora me empolguei pra ler! Terminei comprando essa graphic novel entre outras obras do gaiman numa promo do submarino, mas terminei me ocupando e me esqueci de ler até um dia desses... Vou começar logo! :D

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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