13 de junho de 2013

Para ler: A Confissão da Leoa

"Aqueles que matamos, por mais estranhos e inimigos que sejam, tornam-se nossos parentes para sempre. Nunca mais se retiram, permanecem mais presentes que os vivos."
Eu já tinha ouvido falar bastante de Mia Couto, mas nunca tivera a oportunidade de ler alguma coisa dele até ganhar A Confissão da Leoa no natal do ano passado e levá-lo comigo para a tradicional visita de final de ano a Mirandiba e a casa da minha avó.

Engraçado como o lugar em que você lê pode influenciar sua leitura. Na minha cabeça, a vila em que a narrativa acontece ganhou os contornos da cidade – a cidade da minha família materna tem um clima muito parecido como o que imaginei enquanto lia – um lugar parado no tempo, quente e agreste, onde você ainda encontra curandeiros e contadores de histórias.

A grande diferença entre ficção e realidade, contudo, eram as pessoas. Talvez porque praticamente todo mundo em Mirandiba é aparentada, há sempre alegria, portas abertas e pronta acolhida, enquanto que no remoto vilarejo moçambicano em que a ação do livro ocorre, as pessoas são estéreis, machucadas pela vida, traídas por aqueles que deveriam amá-los.

É um livro típico do realismo fantástico; um lugar perdido no meio do nada, esquecido, relíquias de uma guerra civil que quase obliterou a população, passou a ser atacado por leões – leões que têm uma predileção especial por carne de mulher e que se diz, são capazes de tomar forma humana (ou talvez humanos que sejam capazes de se tornarem leões).

Um caçador, Arcanjo Baleiro, é contratado para dar conta desses leões, que parecem ter alguma ligação especial com a jovem Mariamar – e assim é que a história é contada sob dois pontos de vista, em primeira pessoa por estes protagonistas.

Passado e presente se confundem nessas narrativas, que revelam aos poucos, quase relutantemente, aquilo que levou Arcanjo e Mariamar a se tornarem o que são, juntando ao pouco seus caminhos quase sem se darem conta do que ocorre.

A cadência das palavras, vale dizer, é também quase que poema em prosa, a forma como o autor consegue tornar tão viva em nossa mente uma paisagem tão morta e triste é surreal. É um livro amargo, desvelando mistérios, crenças e mágoas antigas; um retrato doloroso sim, mas fascinante.


A Coruja


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