4 de junho de 2013

Desafio Literário 2013: Junho - Romance Psicológico || O Morro dos Ventos Uivantes

Ele nunca saberá como eu o amo; e não é por ele ser bonito, mas por ser mais parecido comigo do que eu própria. Seja qual for à matéria de que nossas almas são feitas, a minha e a dele são iguais.
Começo hoje com uma observação bem sincera: não consigo entender como é que vendem O Morro dos Ventos Uivantes como uma das maiores histórias de amor da literatura. Concordo bem mais com a idéia que li em algumas críticas e ensaios que esse é um livro sobre a natureza do mal; sobre o egoísmo, a inveja, a avareza, a ira; sobre todos os recônditos mais escuros que possa ter a alma humana.

O que não quer dizer que seja um livro ruim, até porque é impossível você não mergulhar naquele mundo, não se indignar, não responder às imagens e sentimentos que saltam às páginas. Você pode amar ou odiar, mas indiferente não há de ficar à história de obsessão e vingança que liga Heathcliff a Catherine.

Posso compreender que todas as humilhações e tormentos pelos quais passou Heathcliff tenham-no tornado aquilo que é no livro, mas não consigo aceitar a forma como sua vingança acaba atravessando para uma geração que não tem qualquer culpa por aquilo que lhe foi feito. Não é amor que o move, mas um desejo funesto de causar sofrimento a todos que lhe estão ao redor, sem distinção – mesmo àquela que ele diz amar. Encará-lo como um herói romântico é meio que se colocar no lugar de Isabella, acreditando que por trás da fachada sombria exista uma alma nobre.

Aliás, considerando o estado de coisas já no dia seguinte ao casamento entre Heathcliff e Isabella, a concepção de Linton só me soa como estupro conjugal.

Da mesma forma, não consigo compreender a paixão de Catherine. Em minha opinião, ela é uma das personagens mais detestáveis e egoístas de toda a literatura, ainda que sua declaração de amor a Heathcliff seja também uma das mais passionais. Mas a verdade é que Catherine ama apenas à própria imagem e acredita que o mundo deva estar aos seus pés – ela subjuga Linton, como o faz com Heathcliff, e a verdade é que são as palavras de amor dela que acabam resultando no ponto de onde não se pode mais retornar.

Aliás, depois vou pesquisar se existe algum ensaio ou crítica que fale da possibilidade de incesto dentro do romance. Sim, porque é meio difícil de engolir que Mr. Earnshaw tenha simplesmente pego um menino desnutrido e abandonado no meio da rua e tenha decidido carregá-lo para casa, criá-lo com os filhos e transformá-lo em favorito em detrimento de suas próprias crias. A minha desconfiança é que Heathcliff seja, na verdade, filho bastardo de Earnshaw e como tal, meio-irmão de Catherine.

É como uma tragédia grega, em que você espera a todo instante a desgraça e a morte de todos os personagens – e a casa do Morro dos Ventos Uivantes é ela também um personagem trágico, somando às tristezas infindas da história. Na verdade, às vezes tive a impressão, enquanto lia, que o próprio lugar era o culpado por tudo, como se a casa fosse também uma maldição.

Eu certamente não sentiria curiosidade nem desejo nenhum de dormir uma noite que fosse naquela casa.

É, enfim, um livro intenso, que te prende à narrativa, não importa o quão sombria ela vá se tornando (e considerando que ela já começa bem sombria, é surpreendente perceber o quão mais baixo ela pode descer). É uma história de miséria e corrupção, de paixão obsessiva, doentia, que desnuda a natureza humana naquilo que ela tem de pior... mas, surpreendentemente, termina numa nota de esperança, de possibilidade de reconstruir sobre as ruínas que uma inteira geração – Heathcliff, Catherine, Hindley, Edgar e Isabella – deixaram ao longo de todo o romance.

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: O Morro dos Ventos Uivantes
Autor: Emily Brönte
Tradutor: Guilherme da Silva Braga
Editora: L&PM
Ano: 2011
Número de páginas: 384


A Coruja


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3 comentários:

  1. Eu acho excelente esse livro, ocm certeza um dos mais bonitos que já li. Mas achei bem legal sua resenha por diferir ser um bom livro ou um livro de amor pois normalmente as pessoas criticam a história misturando as ideias. Muito legal!

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  2. "é um livro sobre a natureza do mal; sobre o egoísmo, a inveja, a avareza, a ira; sobre todos os recônditos mais escuros que possa ter a alma humana."

    Concordo plenamente. Não gostei do livro, daria uma nota ainda menor pq nem a obscuridade me comoveu tanto..só tive raiva da Catherine mesmo, mas quem sabe numa leitura futura eu tenha outra opinião pois li esperanço o "romance bonito" que todo mundo vê. Ótima resnha!

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  3. Eu gosto do livro, do filme e da música, acho interessante a temática, nao é um amor romântico, é uma coisa doentia, uma sede de vingança, ou seja, nao é nem psicológico, é psiquiátrico rsrs

    http://organizando-o-caos.blogspot.ca/2013/06/desafio-literario-dom-casmurro.html

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