18 de maio de 2013

Era uma Vez... – Parte III: Dama Neurótica, Alfaiate Nervoso

Até hoje não acreditava em magia. Agora sei que existe. Sendo assim, acho que os velhos contos de fadas são todos mais ou menos verdadeiros.

- C. S. Lewis -
Já faz algum tempo que li A Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelheim, e o que mais me lembro da experiência foi que fiquei aterrorizada com o que se passa na cabeça das crianças – ao menos do ponto de vista do autor... Entre desejo pelo pai ou pela mãe cumulado com assassinato da outra parte para poder ficar com o parente que mais ama, Bettelheim identifica nos contos de fadas todos os tipos de pulsões (não tão) infantis desses seres diminutos que estão aí por toda parte.

Ísis: Eu me lembro dessa época. Você me comentou sobre isso e resolveu me traumatizar também... Se eu não lesse YAOIs, seria uma pessoa totalmente diferente... mais depressiva... Afinal, é de contos de fadas que se fazem muitos sonhos infantis.

Lulu: Eu não me responsabilizo por qualquer tipo de trauma decorrente disso... afinal, não fui eu quem inventei a teoria, apenas passei a história para frente.

Ísis: Mentira!

Dé: Não, Isis. Se tu não lesse YAOIs, tu seria normal. xD

Ísis: Mais do que nunca estou feliz em lê-los, então... XD

Lulu: Sem maiores comentários...

Particularmente, não sou uma grande fã das teorias de Freud – incomoda-me a forma como ele reduz praticamente tudo a sexo (Ísis: E não é assim que o mundo funciona? Dé: Resumiu perfeitamente todos os estudos de Freud.). Bettelheim também me incomoda com isso, inclusive por implicar que as necessidades psicológicas das crianças são responsáveis pela autoria dos contos de fadas.

Considerando o que sabemos das fontes desse tipo de histórias e da época em que elas foram inventadas – uma época que mesmo perdida no tempo, sabemos não possuir o conceito social de infância (porque é sempre bom lembrar que a idéia de infância é uma construção social e relativamente recente ainda por cima) – existe uma contradição forte nas teorias do autor.

O que não significa que ele esteja completamente errado. Parte do fascínio que os contos de fadas guardam perpassa por aquilo que ele nos pode dizer sobre nós mesmos, pela forma com que nos identificamos com essas histórias.

Esqueçamos Freud (Ísis: Nooooooooo! XD)... em termos de interpretação dessas narrativas, gosto muito mais da idéia de usar Jung. E é por isso que vamos fazer agora um curso rápido sobre o que são arquétipos e qual a importância deles para essa nossa pequena aventura.

Dé: Ótimo, saímos de um cara que eu não entendo bem, pra um que eu entendo menos ainda! =D

Lulu: E é por isso que vou tentar explicar o que entendi dos ensaios escritos pelo homem...

Muita gente critica o conceito de arquétipos sem entender completamente do que se trata – e não é à toa, porque o próprio Jung não tinha uma definição fechada para o termo (Dé: Típico). Há certa confusão entre a idéia de arquétipo e a de ‘resíduos arcaicos’, terminação de Freud que sugere certas figuras e simbolismos como “elementos psíquicos que sobrevivem na mente humana desde tempos imemoriais” e que Jung critica como “um ponto de vista característico dos que consideram o inconsciente um simples apêndice do consciente (ou, numa linguagem mais pitoresca, como uma lata de lixo que guarda todo o resíduo do consciente)”:
O meu ponto de vista sobre “resíduos arcaicos”, que chamo de “arquétipos” ou “imagens primordiais” tem sido muito criticado por aqueles a quem falta conhecimento da psicologia do sonho e da mitologia. O termo “arquétipo” é muitas vezes mal compreendido, julgando-se que expressa certas imagens ou temas mitológicos definidos. Mas essas imagens e temas nada mais são que representações conscientes: seria absurdo supor que representações tão variadas pudessem ser transmitidas hereditariamente.

O arquétipo é uma tendência a formas essas mesmas representações de um motivo – representações que podem ter inúmeras variações de detalhes – sem perder a sua configuração original. Existem, por exemplo, muitas representações do motivo irmãos inimigos, mas o motivo em si conserva-se o mesmo.
(...)
O arquétipo é, na realidade, uma
tendência instintiva, tão marcada como o impulso das aves para fazer seu ninho e o das formigas para se organizarem em colônias.
Gosto da forma como Jung pensa, especialmente aplicada à idéia da literatura – é o mesmo esquema que Campbell percebeu da Jornada do Herói.

Ísis: Outra obra que tenho de procurar... Se bem que acho que já a comecei em algum ponto da minha vida, possivelmente na casa da Lulu...

Dé: Se bobear acho que dá pra achar até uma cópia da primeira edição da Bíblia na casa da Lu...

Lulu: Não, não tenho uma primeira edição da Bíblia na minha casa. Meus livros mais antigos foram herdados de uma amiga da família e têm uns setenta, oitenta anos de idade. Mas há um missal aqui em casa, em latim, que creio já ser centenário.

E estou me adiantando e embolando tudo, então vamos tentar explicar essa confusão que estou fazendo.

Certas histórias são repetições de motivos – em música, há algo parecido que chamamos de leitmotif uma frase musical recorrente, associada a uma pessoa, lugar ou idéia. O ponto central aqui é que existe algo como um ideal fixo que se repete independente de tempo e lugar.

É a imagem da Grande Mãe, que em muitas culturas aparece dando a luz ao mundo; da Morte de ossos descarnados, do herói que desce aos mundos inferiores, do Outro que nos serve como espelho invertido, do amor à primeira vista ou do ódio que se transforma em amor... são figuras que mais cedo ou mais tarde, em todas as culturas, de alguma forma se cristalizam e que somos capazes de reconhecer quase sempre.

Elas são diferentes em seus detalhes, óbvio, porque cada pessoa e cada povo tem suas próprias idiossincrasias. Em alguns lugares a Morte carrega uma foice, em outros uma espada e em outros ainda, uma balança. Ela é velha, jovem ou descarnada, gentil ou terrível. Mas, em essência, a idéia da Morte continua a mesma.

Ísis: Tenho certeza que a própria morte se diverte pencas com isso também...

Dé: Ainda prefiro a Morte de Sandman. E a da Turma do Penadinho.

Lulu: Também gosto muito da Morte do Sandman, mas minha Morte favorita é a do Terry Pratchett...

Dé: Que surpresa... xD

Como simbologia, ela pode ser interpretada de todas as formas possíveis e imagináveis. Nenhum símbolo pode ser dissociado da pessoa que o relacionou – podem existir definições gerais sobre o que seja a Morte, mas ela vai ganhar um significado diferente para cada pessoa (uma pessoa enferma com uma doença terminal talvez a encare com alívio; para alguns ela é um conforto, para outros uma surpresa, um desastre, uma lástima).

E o que isso tudo tem a ver com contos de fadas? Na minha opinião, tudo, porque a idéia de que existem motivos – ou tendências, na linguagem de Jung – que se repetem e que representam idéias e conceitos mais ou menos fixos dentro da própria natureza humana – explica porque você tem variações de A Bela e a Fera ou Cinderella da China, à Noruega ao Egito.

Ísis: \o/

As variações dizem respeito ao lugar em que as histórias se desenvolveram, mas a essência delas é a mesma. São histórias que “transcendem as diferenças de espaço e de tempo na tradução de temas universais”.

Ísis: É o que nos faz gostar tanto delas... Até porque, como podemos ver contemporaneamente, é MUITO fácil transcrevê-las para outros tempos. É só ver a quantidade de adaptações que têm surgido...

Lulu: Exatamente.

Eis aí que voltamos à problemática da origem oral ou escrita dos contos de fadas, de que falamos na primeira parte desse ensaio e também à crítica a Bettelheim e Freud com que começamos hoje.

Ainda que partamos da teoria de que contos de fadas começaram como obras escritas e não na tradição oral – sua estrutura narrativa herança de Straparola e Basile – é inegável que os motivos dessas histórias (ou arquétipos, se quisermos utilizar o termo técnico) são anteriores e estão presentes na cultura popular e oral, nos contos e anedotas folclóricas, nos mitos, nas grandes sagas, eddas, poemas épicos antigos e tudo o que pode ser colocado no Caldeirão da Sopa Primordial, nos dizeres do Professor Tolkien.

Claro que tínhamos de chegar nele, não é mesmo? De todos os teóricos que li enquanto preparava esse especial, o ensaio Sobre Histórias de Fadas, do Tolkien, foi o estudo em que encontrei a explicação que mais me agradou:
É bem evidente que as histórias de fadas (no sentido mais amplo ou mais restrito) são de fato muito antigas. Coisas semelhantes a elas aparecem em registros muito primitivos e são encontradas universalmente onde quer que exista linguagem. Assim, obviamente estamos diante de uma variante do problema encontrado pelo arqueólogo ou pelo filólogo comparativo: o debate entre evolução (ou melhor invenção) independente dos semelhantes, herança de um antepassado comum e difusão, em várias épocas, de um ou mais centros. A maioria dos debates se baseia em uma tentativa (de um lado ou de todos) de simplificação em excesso, e não suponho que isso seja exceção. A história dos contos de fadas provavelmente é mais complexa do que a da raça humana, e tão complexa quanto a da linguagem humana. Todas as três coisas - invenção independente, herança e difusão - evidentemente tiveram seu papel na produção da intrincada teia das Histórias. Desemaranhá-la agora está além de qualquer habilidade que não seja a dos elfos. Das três, a invenção é a mais importante e fundamental, e portanto (não é de surpreender) também a mais misteriosa. As outras duas terão que retornar, no fim, a um inventor, ou seja, um criador de histórias. A difusão (empréstimo no espaço), seja de um artefato ou de uma narrativa, só remete o problema da origem para outro lugar. No centro da suposta difusão há um lugar onde outrora viveu um inventor. O que é similar à herança (empréstimo no tempo): desse modo, por fim, chegamos somente a um inventor ancestral. Caso acreditemos que às vezes tenha ocorrido a criação independente de idéias, temas e esquemas semelhantes, simplesmente multiplicamos o inventor ancestral, mas sem com isso compreender mais claramente seu dom.
Entre tantas visões e interpretações sobre a definição do que sejam contos de fadas, a gente acaba se perdendo sem saber a qual escola se filiar.

Ísis: Eu me perdi em algum ponto dessa terceira parte...

Dé: E tu já esteve “achada”? O_o

Ísis: Não... Now that you mentioned it...

Como não sou uma especialista, mas apenas uma leitora, fui pegando de cada um aquilo que mais me agradava para formar a minha definição e as idéias do Tolkien nesse ensaio caíram como uma luva naquilo que eu estava começando a pensar: não importa exatamente qual seja a origem escrita ou oral ou se existe um criador absoluto desse tipo de narrativa indo e voltando no tempo, em algum momento temos de encontrar o primeiro inventor, o primeiro contador de histórias.

Não precisamos dar nome a esse primitivo ancestral (que seria a origem também, dos poetas e dos filósofos) que talvez conquistasse sua audiência à beira das primeiras fogueiras, nos primórdio da linguagem (Dé: Pra mim, essa época é interessante por OUTROS motivos... Evolução e tal...). Ele pode ter sido a Mamãe Ganso ou um Xamã viajando entre os deuses. Não importa. Suas crenças, suas primeiras tentativas de explicação sobrevivem, ecoam ainda hoje nessas histórias transcendentes, que nos tocam, nos encantam, nos dizem alguma coisa sobre nós mesmos.

E aí, talvez, resida toda a magia dos contos de fadas.

(Continua em “E Viveram Felizes Para Sempre...”)


A Coruja


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