16 de maio de 2013

Era uma Vez... – Parte II: Num Reino Tão, Tão Distante...

Contos de fadas não fazem as crianças acreditarem que mostros existem. As crianças já sabem que eles existem. Contos de fadas fazem as crianças acreditarem que monstros podem ser mortos.

- G. K. Chesterton -
É curioso: enquanto lia os teóricos dos contos de fadas, encontrei muitas opiniões conflitantes... há quem fale que todas as histórias sobrenaturais ou folclóricas são contos de fadas. Há quem jure que folclore não tem nada a ver com contos de fadas. E há quem diga que histórias passadas no mundo das fadas não são contos de fadas – o que me parece uma afirmação muito complicada.

Seja como for, nessa segunda parte de nosso ensaio, vamos tratar um pouco deste mundo encantado – Faërie, o Belo Reino (Dé: Nevernever!), para muito além do limiar de nosso próprio mundo.

Alguns dos meus livros mais queridos falam de pessoas que atravessaram um muro, colinas distantes ou caminhos por trás de espelhos e assim chegaram a um outro mundo, onde se apaixonaram por estrelas, foram carregados por uma antiga canção ou participaram de bailes em grandes salões sob a terra. Elas partiram, desafiando proibições mortais e retornaram mudadas, para um mundo do qual talvez já não fizessem parte.

No meu gosto pessoal, esses são os melhores contos de fadas: aqueles em que o mocinho ou mocinha partem numa grande aventura, uma verdadeira jornada do herói, com dragões, bruxas e mil e um perigos pelo caminho; ao final retornando para casa tão completamente mudado que sua própria família é incapaz de reconhecê-lo: eles cresceram, conquistaram seus medos e por isso foram capazes de ascender – tornaram-se heróis, príncipes e princesas ou reis e rainhas.

Dé: Essa é a estrutura que todos nós reconhecemos como “aventura”, não é? Também são minhas favoritas. ^^.

É mais fácil encontrar as raízes desse tipo de histórias do que o grande rodeio que fizemos na primeira parte desse ensaio para tentar descobrir a origem dos contos de fadas clássicos: de uma forma geral, narrativas que se passam ou que de alguma forma cruzam o limiar para Faërie, sejam estas medievais ou modernas, fundam-se na mitologia celta dos Thuatha Dé Dannan, os filhos da Deusa Dana.

Criaturas que vivem sob as colinas, deuses antigos ou elfos e fadas: ouvi-los ou vê-los é um perigo para os mortais, que são muitas vezes encantados, roubados para viver num misto de sonho e pesadelo em seus salões reais, presos em feitiços que os forçam a dançar e cantar até que morram de exaustão.

O tempo nestas terras – que é e ao mesmo tempo não é parte do nosso mundo – corre de maneira diferente, com diferentes leis naturais: um ano no mundo das fadas pode equivaler a centenas de anos do mundo humano e as conseqüências de tal fato só podem levar, evidentemente, à tragédia.

Há criaturas pequenas e delicadas, para as quais você deixa leite junto à janela para que elas ajudem nos serviços domésticos; mas há também outras tantas, magníficas, que se despem de sua pele sobrenatural para seduzir humanos por um tempo... e depois os afogam nas águas geladas de um lago, sob a luz do luar.

Ísis: Credo, que assustador. Tava tão bonito no começo da frase... >.<

Lulu: O nome específico dessa criatura citada é kelpie, ele faz parte da mitologia escocesa e eu já escrevi um conto tendo-o como um dos personagens principais.

Ísis: Eu lembro... Achei lindo...

Eles roubam bebês e deixam suas próprias crianças no lugar...

Ísis: Hein? Qual conto é esse?

Lulu: Não é bem um conto específico; mas nunca ouvisse falar de changelings? Tenho a impressão que eles aparecem especialmente em contos alemães...

Dé: Se não me engano, até TROLLS faziam isso...

Ísis: Vou parar de comentar esse especial; estou sentindo na pele o quanto sou ignorante... >.< ... 

São capazes de grande bondade ou maldade – não que isso signifique qualquer coisa, pois sua moral é completamente diferente da nossa: para eles não existe apenas o preto e o branco, mas sim aquilo que lhes é mais prazeroso, mais confortável. Eles nunca lhe farão um favor apenas por gentileza, mas sempre por algum interesse próprio, nem que seja para escapar ao tédio que muitas vezes domina os seus séculos sem fim. São praticamente imortais, não fosse pelo ferro – e, por isso, a Revolução Industrial talvez seja a principal responsável pelo sumiço desses personagens de muitas das antologias de contos de fadas. Ou talvez isso tenha ocorrido porque após um certo período (e talvez devamos culpar especificamente os vitorianos por isso) as histórias de fadas foram relegadas ao quarto das crianças, contadas por alguma velha babá – e muito do material desses contos é bem pouco apropriado para crianças. Afinal, como Tolkien bem observa em seu (magnífico) ensaio Sobre Histórias de Fadas:
Porque o problema do verdadeiro povo do Belo Reino é que nem sempre se parecem com o que são, e ostentam a soberba e a beleza que usaríamos de bom grado. Pelo menos parte da magia que manejam para o bem ou para o mal do homem é um poder para brincar com os desejos de seu corpo e seu coração.
É sempre bom lembrar que, partindo de qualquer princípio – que contos de fadas começaram oralmente ou de forma literária – o fato é que eles não foram pensados para crianças (na verdade, a própria idéia de ‘infância’ não existia).

Seja lá como for, na terra das fadas ou num castelo de um reino misterioso, para além do tempo e do espaço, o fato é que as histórias de contos de fadas não acontecem em nosso mundo, ou, pelo menos, não no ‘aqui e agora’.

Isso é algo importante de se notar, porque é intrínseco à própria natureza desse tipo de narrativa. Dragões foram imaginados muito antes de se encontrarem esqueletos de dinossauros; assim como gigantes, trolls, ogros e outros monstros sempre estiveram debaixo da cama (Dé: Ou ponte.) ou dentro do armário – desde que armários e camas passaram a existir.

Mas eles nunca estiveram de fato em nosso mundo. Não importa quantas vezes você acredite que escutou alguma coisa em meio à escuridão da noite, ou quantos feitiços, encantos e bruxas capazes de mudar sua aparência e assim enganar incautos possam existir: essas histórias nunca acontecem ‘com um amigo de um amigo meu na semana passada’, mas num tempo indefinido (era uma vez) num lugar que não se pode definir (um reino tão, tão distante).

Ísis: Lulu, você está acabando com os sonhos de muita gente... ¬_¬

Dé: Ou não... =P

Lulu: Hã...

Esse “era uma vez” representa, para Bettelheim, ‘o período longínquo em que todos nós acreditávamos que nossos desejos podiam, senão mover montanhas, ao menos mudar nossos destinos’.

E é disso que se trata no final, o que é curioso, especialmente a se considerar que passamos boa parte de nossa infância com medo dessas criaturas, mesmo quando sabemos que sempre (ou quase sempre) haverá um final feliz.

Ísis: Depende da versão que você conhece, né? Porque a maioria das histórias tinha final triste/trágico, nera?

Lulu: Não necessariamente. Há muitos contos com final feliz, alguns moralizantes – como a Chapeuzinho Vermelho – outros aterrorizantes... tem de tudo um pouco ;) De toda forma, foi por isso que eu disse ‘quase sempre’.

Ísis: O final de Chapeuzinho Vermelho era bem trágico, até onde lembro... Mas a parte do moralizante se aplicava, sim.

Dé: Sempre existem as exceções que comprovam as regras, não é?

A questão aqui é: se sabemos que nenhuma dessas histórias acontecem em nosso mundo (e que não vou cruzar com um dragão ao cruzar a próxima esquina), então por que elas são capazes de mexer tanto conosco, de nos amedrontar ou inspirar ou responder perguntas que nem sabíamos ter feito?

Continue sintonizado no Coruja que falaremos disso no próximo capítulo.

(Continua em “Dama Neurótica, Alfaiate Nervoso”...)


A Coruja


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