9 de maio de 2013

Era uma Vez... – Parte I: (In)definições

Contos de fada são mais do que a verdade. Não porque eles nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados.

- Neil Gaiman -
Antes de mais nada, gostaria de começar observando que não tenho formação em letras e não sou uma especialista em folclore, história, antropologia ou psicanálise. Sou uma leitora e como tal vivo cruzando informações e caçando chifre em cabeça não é nem de cavalo, mas de hipogrifo mesmo. Assim, peço desculpas antecipadamente por qualquer barbaridade que eu possa dizer aqui – esse especial é fruto de um bocado de pesquisa, sim, mas também de muitas das minhas impressões, teorias e sentimentos sobre o tema.

Dé: Até parece, aposto que tu tá pesquisando sobre o tema feito uma louca, justamente pra não ter dessas...

Lulu: Considerando que foi justamente toda essa pesquisa que me deixou confusa...

Estou falando que vou escrever sobre contos de fadas desde que terminei minha ‘tese’ sobre Sherlock Holmes no aniversário do ano passado. A princípio, tinha pensado em fazê-lo ainda no segundo semestre de 2012, até porque em dezembro teríamos o bicentenário de publicação do primeiro volume de contos dos Irmãos Grimm. Mas com viagem e prazos e minha falta de tempo crônica, tive de rever os planos e eis, portanto, que o especial chegou, novamente, no aniversário do blog.

E que maneira melhor de comemorar a data do que um dos já tradicionais especiais-quase-monografia do Coruja, não é mesmo?

Ísis: Lá vamos nós de novo...

Lulu: Faz parte do que é o Coruja, praticamente desde o começo...

Vamos começar de forma bastante óbvia: afinal de contas, o que é um conto de fadas? E aí você começa a ler a literatura especializada sobre o assunto e chega à assustadora conclusão de que essa pergunta não é nada óbvia e é muito, mas muito mais complicada do que aparenta.

Mais fácil talvez seja iniciar dizendo o que não é um conto de fadas. Fábulas, por exemplo, não são contos de fadas, ainda que elas possam se parecer um pouco em sua estrutura narrativa. Uma fábula é normalmente uma história breve, em verso ou prosa, tendo por essência uma lição moral, muitas vezes empregando personagens animais que falam e agem como seres humanos. O termo deriva do latim e significa literalmente conversa, discurso, aquilo que é dito.

Contos de fadas não necessariamente são histórias com alguma espécie de moral ou aviso de cautela; e ainda que possa haver animais falantes, eles não são uma constante ou mesmo o centro das atenções – o cenário dos contos de fadas, em sua maioria, estão ligados ao mundo urbano, cidades; e assim é que predominam os humanos ou criaturas míticas semelhantes a humanos.

Contos folclóricos também diferem de contos de fadas em sua estrutura, seus personagens e mesmo sua trajetória narrativa. Breves e lineares, os contos folclóricos “refletem o mundo e o sistema de crenças de sua audiência”. É o que observa Ruth Bottigheimer em Fairy Tales: A New History, especialmente sobre as personagens que povoam esse tipo de história:
“... [são] maridos e esposas, plebeus, ladrões patifes, e o ocasional médico, advogado, sacerdote ou padre. Num típico enredo folclórico, alguém foge com o dinheiro de outra pessoa, ou bens ou honra. Mais ao ponto, a maior parte dos contos folclóricos não têm um final feliz. Conflitos conjugais se agigantam porque típicos contos folclóricos que incluem um casal não são sobre as alegrias de se casar, mas sobre as dificuldades de estar casado.”
São histórias, muitas vezes, com tom de anedota, de linguagem simples, apelo sexual e escatológico. Fazem parte da tradição oral e estão fortemente ligadas à cultura local.

Ísis: HEIN?! Antropofágica eu entendo, mas escatológica tá onde? Aliás, por que será que gostam tanto de antropofagia em contos de fadas?

Lulu: Não entendo também qual o apelo, mas há alguns contos que entram em bastante detalhes sobre funções corporais que, realmente, não vale à pena entrar muito no assunto... contos folclóricos, lembre-se, têm algumas diferenças para os contos de fadas, que é o que estamos tentando estabelecer aqui.

Quanto à parte da antropofagia, eu imagino que isso tenha a ver com tabus e arquétipos, que é algo de que vamos tratar na terceira parte desse especial. Não se preocupe, chegaremos lá...


Ísis: Por que raios você gosta de me fazer esperar?!

Dé: Quem manda ser impaciente? XD

(Explica logo, Lu!)


Ísis: Vou levar meu traseiro gordo pro lado de cá, porque corremos o risco de ficar sem cozinheiro... XP

Lulu: Cara, vocês não conhecem uma história em que de duas meio irmãs, uma é abençoada com fazer cair pérolas e rubis da boca toda vez que fala e outra é amaldiçoada a vomitar sapos e lesmas toda vez que abre os lábios?

Ou da velha que em um conto esquimó usa a urina para fazer um boneco de barro transformar-se em homem?

Ou do conto em que um pai proíbe a filha de se casar com um rapaz pobre e a avó do rapaz amaldiçoa toda a família com flatulência?

Esses não são contos de fadas, mas contos folclóricos, como já expliquei. E agora não reclamem de ter recebido a resposta que procuravam...


Ísis: Se eu for honesta, vou ter que dizer que não, não conheço nenhum deles...

Os contos de fadas têm uma certa identificação com contos folclóricos no sentido de se utilizar de algumas das mesmas fontes originárias. A grande diferença – e aqui é que vocês devem esquecer tudo aquilo que achavam que sabiam sobre esse tipo de narrativa – é que contos de fadas começaram como uma tradição literária.

Da mesma forma, diferem os contos de fadas e contos folclóricos dos mitos. Mitos não têm autores definidos, como as histórias do folclore; são, um caldeirão de “referências históricas, fantasias comuns, elementos do cotidiano de cada época” e, em seu cerne, surgiram como uma tentativa de explicar a origem de tudo – do universo, do mundo, do ser humano. Como bem observam Mário Corso e Diana Lichtenstein em seu livro A Psicanálise na Terra do Nunca:
Seu uso busca amalgamar o máximo de elementos possíveis, pois ele não existe para gerar interrogações, mas sim para dar explicações, para fechar questões. (...) O mito é uma tentativa de dar explicações através de histórias para o que é freqüentemente inexplicável, e se não se ocupasse das fronteiras do nosso conhecimento, não seria necessário recorrer a argumentos fantasiosos para dar conta do assunto.
A noção de contadores de histórias que retiram das profundezas da memória histórias passadas oralmente de geração para geração é uma romantização dos Irmãos Grimm – uma figura ‘arquetipizada’ na imagem da Mamãe Ganso de Perrault. Na prática, os motivos e temas constantemente utilizados nos contos de fadas clássicos - como a própria noção de final feliz – surgiram entre os séculos XV e XVI... na Itália.

Ísis: E eis o Renascimento italiano realmente mudando TUDO o que se conhecia até então. Imagino que viver nessa época deve ter sido ou muito frustrante (para alguns) ou muito emocionante (para outros).

Lulu: Eu teria morrido de felicidade... muitas das minhas obras de arte favoritas são desse período.

Ísis: Por que não estou surpresa com qual das duas opções você escolheu? XP

Vou confessar que relutei bastante quando encontrei essa informação nos estudos sobre o assunto que saí cruzando para escrever esse especial. Sempre tive em minha mente que contos de fadas eram algo de produção originária popular, fundado na tradição oral. A Alemanha era o país que estava à frente nas minhas divagações sobre o tema, seguida da França e da Dinamarca – afinal, os contos de fadas clássicos com que crescemos são, em sua maioria, desse eixo. Nunca, nem em um milhão de anos que ia associar contos de fadas com a Itália.

A princípio, eu pensei que essa era uma teoria particular da Bottigheimer, mas depois cruzei com a mesma informação em Italo Calvino e por fim no ensaio do especialista Jack Zipes que serve de introdução para o The Oxford Companion to Fairy Tales e em vários outros artigos pela internet.

Bateu aquela vontade de pular da janela...

O caminho é tortuoso, mas vamos tentar percorrê-lo com menos incidentes possíveis e vejamos se consigo explicar para vocês o que aprendi nesse entrecruzamento de teorias literárias... E em algum ponto chegar a uma conclusão do que seja o conto de fadas...

Ísis: Boa sorte.

Lulu: Nós vamos precisar... E agora, entrando na floresta!

Além de alguns autores anônimos por volta do século XIII, ajudaram a pavimentar o caminho dos tijolos amarelos os renomados Boccacio, com seu Decamerão e Chaucer, com os Contos da Cantuária. Esses romances, obviamente, não são contos de fadas, mas utilizam algumas estruturas narrativas e motivos da tradição oral que dariam a moldura para Giovan Francesco Straparola e Giambattista Basile se tornarem os pais dos contos de fadas.

Ísis: Diz-me que não é que eu seja ignorante por não saber esses nomes... é por não serem conhecidos mesmo...

Lulu: Desculpa, Ísis, mas... se você não conhece sequer de nome Boccacio e Chaucer, há uma lacuna grave na sua cultura clássica... eles foram precursores do romance moderno; Chaucer, em particular é conhecido como o pai da literatura inglesa.

Não estou dizendo que é um pecado não tê-los lido, porque ambos são textos pesados, com uma linguagem muito diferente da que temos hoje e um subtexto erótico nem sempre sutil. Mas você deveria conhecê-los pelo menos de nome, porque eles são citados em aulas de história e literatura (pelo menos foram nas minhas aulas...).


Ísis: Pois ou não foram nas minhas, ou eu apaguei essa parte da literatura da minha cabeça... Considerando que, pelo menos, quando é algo da categoria “já ouvi falar” eu não esqueço tão fácil, diria que é a primeira opção mesmo.

Inspirando-se em baladas medievais, contos folclóricos (há, olha eles aqui!) e lendas locais, esses dois escreveram (e não apenas compilaram) suas próprias histórias que viriam a se tornar aquilo que temos como os principais, os clássicos contos de fadas.

É importante que se note a diferença entre escrever uma história inspirada em certos motivos (como a Dama Adormecida que poderia ser Brunhilde ou outra personagem de algum romance renascentista) e compilar narrativas já existentes e é aqui que as águas se tornam turvas e aquilo que todos pensávamos saber começa a dançar numa corda bamba que tanto pode cair para um lado como para o outro.

Há variações da história de Cinderela que datam de antes de Cristo e vão do Egito à China. Mas o quanto podemos dizer que é a variação de uma narrativa fechada ou de um motivo – o da pobre menina que se eleva além de sua condição a despeito dos esforços da ‘madrasta má’? Em alguns desses contos há sapatinhos perdidos, em outros anéis perdidos e por aí vai – o importante é que haja um objeto que, deixado para trás, funcione para identificar a dama em questão.

E, nesse ponto, faz sentido que tudo tenha começado na Itália... se estamos pensando que contos orientais, como os das As Mil e Uma Noites (que na minha opinião está repleto de contos de fadas), foram também uma das bases para a criação desse tipo de narrativa, os maiores portos do mundo medieval eram os italianos e era por ali que entrava não apenas a seda e as especiarias, mas também as histórias.

Em Veneza (Ísis: Muito antes de ela afundar... XP Lulu: Ela só pode afundar depois que eu visitá-la em agosto... por sinal, devo levar galochas? Ísis: É uma boa, já que nunca se sabe quando vai chover em Veneza, e, se você tiver essa sorte/esse azar, é bom tê-las. O problema é mais a chuva, porque a cidade em si é tranquila nesse aspecto.), Straparola escreveu entre 1550 e 1553 Le Piacevoli Notti, ou numa tradução grosseira, “As Noites Prazerosas”. São setenta e cinco histórias que, como no Decamerão, são contadas pelos convivas de uma festa ao longo das festividades, incluindo aí a mais antiga versão conhecida de O Gato de Botas.

Creditado como uma espécie de ‘ghostwriter’ para ricos e poderosos, Straparola tinha a experiência tanto da pobreza quanto do fausto. Ele sabia do que estava falando ao cuidar da miséria em que muitos dos personagens tradicionais dos contos de fadas começam suas histórias.

Basicamente, ele foi o responsável pela criação do que estudiosos chamam de ‘contos de ascensão’ – a outra variante seriam os ‘contos de restauração’ que teriam motivos anteriores a Straparola e raízes nos romances medievais. Nos contos de ascensão, você tem um personagem pobre, que através de uma intervenção mágica, casa com um príncipe ou uma princesa, e vai viver numa terra distante onde se torna fabulosamente rico.

Contos de fadas, realmente, uma vez que na Veneza da época de Straparola, era proibido por lei o casamento entre classes sociais. Considerando que nessa mesma Veneza, a maior parte dos pobres sabia ler (contrariando teorias clássicas até dos próprios Grimm, sobre a ignorância do ‘povo miúdo’ que serviria assim de prova para o fato de que os contos que eles narravam não podiam descender de obras literárias), o que Straparola fez foi encontrar um nicho de público interessado, até mesmo ávido, pelo escapismo que suas obras proporcionavam.

De Basile temos Lo Cunto de Li Cunti, “O Conto dos Contos”, mais conhecido como Il Pentamerone. Basile passou a vida coletando os contos apresentados nessa antologia, que foi publicada postumamente por suas irmãs, entre 1634 e 1636 e aqui você encontrará as origens européias de histórias como Cinderela, Rapunzel, A Bela Adormecida e João e Maria.

Basile começou a escrever suas histórias quando era ainda um jovem estudante de vinte e poucos anos na Accademia degli Stravaganti, em Creta e, posteriormente, na Accademia defli Oziosi em Nápoles, sob influência dos espanhóis, que controlavam a região, onde foi colega do poeta Francisco de Quevedo.

Ísis: A tradução disso é literalmente “extravagante” e “ocioso”?

Lulu: É o que parece, não... acho que tem a ver com algum tipo de escola literária da tradição barroca; eu confesso que, não sendo uma grande fã do barroco, não tenho grande conhecimento de causa...

Ísis: Meu professor de português (um deles, pelo menos) me ensinou que a palavra “escola” vem do grego “ócio”, porque era o lugar onde os homens livres e aristocratas iam para passar o tempo. Estou pressupondo que isso seja um resquício, não?

Lulu: Provavelmente...

Não é à toa que há um tom do barroco nas exageradas metáforas que resistiu em muitas histórias de contos de fadas que nos chegaram: Basile – e também Straparola – estavam ligados a essa escola literária e o primeiro, em especial, recebeu diretamente a influência espanhola, que foi um dos expoentes do estilo.

Nesse caso, o barroco, misturado ao dialeto napolitano, no qual Basile conscientemente escolheu escrever, realçava o aspecto cômico de muitas das histórias. Ao mesmo tempo, o ritmo, a musicalidade do texto sugerem que elas eram escritas para performances, leituras em voz alta – e daí talvez venha a propagação dos contos que sendo levados de lugar em lugar por bardos ou contadores de história, lidos ou relembrados em voz alta, viajariam da Itália até a França e a Alemanha, para serem então compilados por gente como os Irmãos Grimm.

Por esse período, na Grã-Bretanha, também existia uma capitalização das idéias relacionadas ao rico material de criaturas de seu folclore: sir Edmund Spenser escreve entre 1590 e 1596 o épico poema The Faerie Queene; Ben Jonson apresenta em 1611 Oberon, The Faery Prince, e Shakespeare leva aos palcos Sonho de Uma Noite de Verão.

Embora eu goste da idéia dessa peça do bardo, devo dizer que torço um pouco o nariz para a forma como ele insere o ‘mundo das fadas’ no nosso imaginário. Sim, porque fadinhas minúsculas com asinhas de inseto? Até existe no folclore inglês algo parecido – as ‘doxies’ – só que elas não são nem de longe o resumo da ópera quando se fala de fadas.

Em todo caso... questões religiosas expulsaram esse mundo onírico (Ísis: Lulu e suas palavras complicadas... Lulu: Vou te dar um dicionário de presente qualquer dia desses XD Dé: E desde quando “onírico” é uma palavra complicada? Ísis: Desde que eu vivo esquecendo o que ela – e um bocado de outras palavras que a Lu usa – significa...) da literatura inglesa após esse período, e a tradição literária nesse estilo encontraria seu refúgio na oralidade, de onde chegaria aos Irmãos Grimm.

Antes disso, porém, temos de fazer uma parada na França, onde por volta de 1690, quase cem anos depois da publicação, na Inglaterra, do poema de Spenser – que é também considerado um dos marcos iniciais de toda a literatura fantástica – um grupo de autoras mulheres (e isso é bom frisar, porque até então os autores eram sempre homens), deu nome aos bois e passou a designar as narrativas que seguiam a estrutura já proposta por Straparola e Basile como Contes de Fées, ou ‘Conto de Fadas’.

As histórias desse grupo de mulheres parisienses – formado por autoras como Mme. d’Aulnoy, d’Auneuil, de Murat, e de La Force – eram confessadamente inspiradas pelos livros de Basile e Straparola; fosse como uma moldura para escreverem seus próprios contos de fadas – e A Bela e a Fera é um tal caso; como polindo a prosa nem sempre delicada e apropriada dos dois italianos para a corte francesa.

Mais importante, talvez, é observar que elas assim chamaram os ‘contos de fadas’ não por existirem fadas em suas histórias, mas pelo fato de que, escreve Zipes, “o centro do poder em seus contos está em mulheres onipotentes”.

Elas não escreviam necessariamente para crianças. Mas um seu contemporâneo o fazia: estamos falando, claro, de um dos três grandes nomes no mundo dos contos de fadas: Charles Perrault, que em 1697 publicou Os Contos da Mamãe Gansa.

Não gosto muito de Perrault. Há qualquer coisa no tom com que ele moraliza os contos de fadas – e não se engane, que antes da Disney, Perrault foi o grande responsável pelo primeiro grande extirpar de conotações de sexo e violência – que me soa como condescendência.

Ele deu a Cinderela sapatos de cristal (em versões mais antigas, ele era de ouro ou prata ou mesmo do pêlo branco de um esquilo...), acordou a Bela Adormecida com um simples beijo (na variante de Basile, de dar arrepios, o príncipe ou rei não a acorda, mas a estupra) e terminava suas histórias sempre com uma pequena lição de moral, no melhor estilo das fábulas de Esopo e La Fontaine.

Perrault escreveu para a aristocracia francesa. Seu mundo era o da corte; alguns de seus contos foram encomendas do próprio rei para seus familiares. Nesse sentido, é curioso que a idéia de que os contos de fadas lhe tivessem chegado de forma oral, através da “gente simples do povo”, pudesse ser creditada. E, no entanto, é aqui, com a figura de contadora de histórias da ‘Mamãe Ganso’, que começa a presunção de que contos de fadas são uma tradição popular não literária em sua origem.

Dé: Talvez por esse fato, de escrever para a aristocracia, ele tenha “suavizado” os contos. Afinal, que dama nobre iria querer ler sobre uma garota adormecida sendo estuprada (e engravidando) de um rapaz, mesmo que um príncipe/rei, especialmente quando não é casada?

Ísis: Né? Ou será que a essa época, ler esse tipo de coisa ainda não era “errado”? Veja bem que escrevi “ler”, o que é bem diferente de “fazer”! Por sinal, em que época estamos mesmo?

Lulu: Século XVII. Não era uma época muito particularmente bondosa com as mulheres; a situação da Bela Adormecida não pareceria tão aterrorizante na época porque era meio que a regra – as mulheres eram vistas como meros objetos, afinal.

Ísis: Depende: “...não ser particularmente bondosa com as mulheres” é algo relativo. Depende muito do pensamento da época e das vontades das próprias mulheres...

Eu tinha um único ponto de particular simpatia com Perrault, que era o fato de ele ser o responsável por Pele de Asno, um dos meus contos favoritos de todos os tempos. Aí agora descobri que o que Perrault escreveu é uma versão “sexualmente modesta, socialmente decente e, ao final, altamente moral” de uma história que, em Basile era muito mais sugestiva e em Straparola, um pouco menos polida.

E se você tiver alguma dúvida sobre a forma como o francês se apropriou dos dois italianos (Ísis: Isso não soou nada bem... XD), coloquem as três variantes lado a lado e verifiquem por si mesmos.

Curiosamente, eu ainda gosto da versão de Perrault, talvez pela ligação que eu faço em minha cabeça com o adorável filme de 1970 com Catherine Deneuve no papel da princesa sob a pele de asno.

Eis então que chegamos aos Grimm. E ainda não chegamos a nenhuma conclusão do que pombas seja um conto de fadas... Mas continuemos com a digressão histórica por hora...

Ísis: Peraí, pombas ou fadas? Decida-se.

Lulu: Vai ser elefante no espeto daqui a pouco...

Dé: Uhu! Churrasco! Vou acender o fogo!

Ísis: Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk... hein?! SOCORRO!

Para começo de conversa... o nome do livro dos Grimm não é “Contos de Fadas dos Irmãos Grimm”, mas Kinder-und Hausmärchen, traduzido no Brasil como Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos. Daí talvez venha muito da confusão que temos com o que são os contos de fadas, porque na compilação dos Grimm há desde folclore a narrativas religiosas, passando, claro, por alguns dos contos de fadas.

A falha de comunicação aqui vem dos vários prólogos escritos para as sucessivas edições do livro. Em seu primeiro volume, publicado em 1812, as fontes confessas dos Grimm são em sua maioria mulheres, de sua mesma classe social, educadas e bem versadas no francês – consumidoras, portanto, da literatura de Perrault e das senhoras já citadas anteriormente, que por sua vez, tinham bebido na fonte italiana.

Quando da publicação do segundo volume, os Grimm tinham encontrado uma outra fonte, essa sim, uma filha de taverneiros e mulher do povo, chamada Dorothea Viehmann. Tendo crescido numa taverna – o centro social de qualquer vila medieval (Dé: Como qualquer aventureiro sabe... XD) – Dorothea passou toda a infância e adolescência escutando as histórias que eram contadas ali, histórias que ela depois repetiu para os Grimm graças a uma extraordinária memória (Ísis: Ô, inveja!), muitas vezes seguindo palavra por palavra aquilo que os compiladores franceses já tinham escrito.

A partir de então, Wilhelm e Jacob passaram a afirmar a origem popular e oral dos contos de fadas – e muitas vezes, ao tentarmos definir o que sejam esses tipos de narrativas, partimos do princípio da oralidade para identificá-las.

O grande problema dos Grimm, como bem observa Bottigheimer em seu livro, foi afirmar que a plebe – e em especial, o povo do interior, porque para eles esses contos não tinham surgido nas cidades, mas no campo – não lia, mesmo porque só tinha o conhecimento da própria língua de forma bastante problemática e logo, não teriam acesso a livros orientais, italianos ou franceses, o que só podia significar que as histórias que contavam tinham nascido entre eles próprios e não derivavam de livros.

O que não podemos esquecer é que os Grimm tinham uma agenda política; eles não estavam simplesmente compilando histórias e tradições do povo porque achavam que isso era bonito ou porque elas tinham um valor estético importante. Kinder-und Hausmärchen fazia parte de um projeto nacionalista, de exaltação da língua alemã e da identidade dos alemães como nação, especialmente porque não fazia tanto tempo assim da unificação do país.

Ísis: Opa, isso eu não sabia. Superinteressante!

Nesse giro histórico, falta falar de Andersen, mas aqui já voltamos ao começo. Andersen é Basile e Straparola: ele não é um compilador, mas um autor; e são dele algumas das mais tristes histórias de contos de fadas – o que prova que finais felizes também não servem de critério na definição que buscamos.

E eis que finalmente chegamos ao ponto que queríamos chegar: o que são contos de fadas? Após toda essa digressão histórica, dizer que elas são narrativas anônimas de origem na oralidade (que era algo que eu mesma sempre tinha acreditado) não é exatamente o mais confiável dos critérios.

Li umas trocentas definições, algumas extremamente técnicas, outras extremamente restritivas e no final das contas, cheguei às minhas próprias conclusões. Essa é, então, a minha definição de contos de fadas: histórias que ultrapassam os limites do ordinário, do cotidiano; que trazem elementos de magia, muitas vezes ligado a alguma espécie de proibição (não coma maçãs ofertadas por velhinhas simpáticas, não toque o dedo na lança da roca, não roube os repolhos, não atravesse o muro, não colha as rosas de seu anfitrião misterioso, não faça acordos com anões de barba branca que querem que você adivinhe o nome deles), cujos personagens têm de superar as conseqüências de terem desobedecido para alcançarem - talvez não um final feliz, mas uma resolução.

Elas podem ser longas ou curtas, contadas ou lidas, mas têm um certo estilo, uma certa aura que é impossível não estar diante dela e não dizer “isso é um conto de fadas”. Elas não são sempre coloridas e risonhas; muitas vezes guardam um verniz de sombras sob o aparente brilho e encantamento, ou nas palavras do mestre Tolkien: “...uma beleza que é um encantamento, e um perigo sempre presente; alegrias e tristezas agudas como espadas”.

Ísis: Isso significa que histórias de casas malassombradas também são contos de fada? Porque tecnicamente, não se deve entrar num local não público sem permissão, ou até mesmo pode-se dizer que não se deve entrar num local visivelmente (ou aparentemente) não seguro. Aí o personagem entra... e vem um bocado de fantasmas, bruxas etc. Coisas que vão além do ordinário.

Ou seja, Gasparzinho poderia ser um conto de fadas? oO

Lulu: Não necessariamente, Ísis, porque os contos de fadas têm um tipo de narrativa bastante específica e facilmente reconhecível – mesmo partindo da teoria que eles começaram como obras escritas, o fato é que eles foram criados para serem contados em voz alta – linguagem e ritmo têm uma importância especial neles.

Considere que todo esse especial é uma grande tentativa de definir contos de fadas e que estamos na primeira parte, tentando escavar as raízes históricas. Até o final, conseguiremos chegar a algumas conclusões...


Ísis: Vou rir demais se a conclusão for “...não ser particularmente bondosa com as mulheres...” XP

É subjetivo, eu sei. Mas creio que cada um deve ter sua própria definição. Contos de fadas são algo tão privado e íntimo quanto público; ainda que compartilhando essas histórias, elas também têm seus significados e importância particulares a nós. Elas são nossas e ao mesmo tempo, de todo mundo. E esse é só um dos inúmeros motivos pelos quais elas continuam, em qualquer idade e a qualquer época, nos encantando e prendendo e perdendo entre suas meadas.

(Continua em “Num Reino Tão, Tão Distante...”)


A Coruja


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2 comentários:

  1. Dani não pode comentar na primeira parte do especial por falta de tempo, mas está presente com os desenhos ;)

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  2. Se desse pra curtir (q nem no face) eu curtia!!! kkkk Gostei! Meu... amo seu jeito de contar/escrever!!!! Eu viajo quando leio esses especiais e cia! Vc já chegou a ler a introdução (um tanto longa) da nova edição fofa da coleção "Contos Maravilhosos e Domesticos" dos Irmãos Grimm da Cosac Naify (http://editora.cosacnaify.com.br/Loja/PaginaLivro/1639/MaisVendido.aspx)? Mto boa e dá uma boa idéia de contos de fadas e suas diferências e que na verdade a melhor nomeação dos "Contos de Fadas" é justamente o nome dado pelos Grimm em seu livro, tem "mó" desenvolvimento com argumentos e afins! Vale a pela ler e postar aqui! ;)

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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