19 de março de 2013

Para ler: Fábulas


O título de que vou falar hoje tem muito em comum com Once Upon a Time, sobre o qual escrevi semana passada. Ambas trazem personagens de contos de fadas tendo de viver e se virar em nosso mundo, vítimas de circunstâncias alheias a suas vontades e ambos dão destaque à Branca de Neve, que é transformada de garotinha órfã tolinha em uma mulher forte e corajosa, com pendor para liderar.

A obra de Bill Willingham, contudo, é marcada por tons mais sombrios... e cínicos. Não existem claras definições de mocinhos e bandidos (essa linha é aqui muito mais ambígua que em OUAT). A título de exemplo, o Príncipe Encantado é um cafajeste que já casou e se separou da maior parte das princesas; Branca foi sua primeira esposa e ele a traiu com a irmã dela mesma, Rosa Vermelha. Posteriormente, Branca acaba nos braços de Bigby, que é ninguém menos que o Lobo Mau, com quem tem filho(te)s.

Fábulas é uma série em quadrinhos ainda em publicação, em que personagens dos mundos dos contos de fadas – as Terras Natais – são forçados a emigrar para o nosso mundo quando eclode uma guerra contra o Adversário, um personagem misterioso que pretende dominar todos os mundos e expurgar deles seus ‘pecados’, mesmo que para isso tenha de cometer todas as atrocidades imagináveis (e os desenhistas não nos poupam de detalhes gráficos da violência com que essa guerra quase extermínio ocorre).

Aqueles que conseguem fugir acabam se concentrando num bairro de Nova York, conhecido como ‘Cidade das Fábulas’, embora aqueles que sejam incapazes de se transformar em humanos tenham de ficar confinados na Fazenda. Todos os crimes são perdoados, o passado esquecido nesse novo estágio de convivência: o Lobo Mau se torna xerife, Barba Azul é o maior pagador de impostos e Frau Totenkinder (a bruxa que parece estar por trás de todas as principais maldições nas Terras Natais) se torna funcionária da prefeitura, que é gerenciada por Branca de Neve, a vice-prefeita (o prefeito, o Rei Cole, é um senhor Bonachão mais indicado para a parte de diplomacia de mesa que política propriamente dita...).

Os encadernados da série estão sendo relançados pela Panini aqui no Brasil. O legal é que cada arco, especialmente no começo da série, pertence a um gênero diferente. O primeiro encadernado, por exemplo, é uma história de investigação e mistério tendo como principal suspeito o João (aquele do Pé de Feijão, do Ganso de Ouro, do Alfaiate e os Gigantes...); há volumes que tratam de conspirações políticas, romance, que viajam às Arábias... Mas enquanto cada arco tem um enredo fechado, eles explicam pouco a pouco a história, nos apresentam as peças no quebra-cabeças – afinal, quem é o Adversário? E até onde as Fábulas estão dispostas a ir para recuperar suas vidas nas Terras Natais?

Todos os personagens têm seu momento de protagonista; todos são importantes, têm personalidades muito bem construídas, motivações, questionamentos. Tenho um especial carinho pelo príncipe sapo – ao ser revelado seu passado, antes do exílio, confesso que fui às lágrimas.

Eu recomendo, especialmente pegando os volumes 01 a 12, que têm a narrativa completa da ‘Grande Guerra’. Acho que a série podia ter terminado ali pela metade do décimo segundo encadernado, porque o ciclo principal se fechava, mas, bem, é necessário fazer dinheiro, não é mesmo? Não desdenho do que veio depois, mas me canso um pouco de tantas pontas soltas e tantos volumes de enrolação (afinal, estão publicando os quadrinhos desde 2002; uma hora a fonte esgota e é o momento de partir para outras explorações sob o risco de se tornar cansativo e repetitivo).


Enfim, Fábulas é uma história forte, repleta de reviravoltas, com um senso crítico apurado e uma correnteza de intenções políticas. Contos de Fadas clássicos, de uma maneira que você certamente ainda não viu.


A Coruja


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2 comentários:

  1. essa série é simplesmente demais...
    O plot é (ao primeiro olhar) um tanto quanto estranho... mas os desdobramentos são ótimos.
    é uma obra de arte....

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