12 de fevereiro de 2013

Quem Conta um Conto (Fevereiro): O Conto do Dé || A Jornada

A Jornada

Eis que após meses de viagem árdua, elas podiam avistar as Planícies da Desolação, um imenso campo devastado, que se estendia até onde a vista alcança. Troncos de árvores secas pontuavam a paisagem, indicando uma exuberância passada, que agora não passava de uma distante lembrança.

Chegamos, Ofélia. Finalmente chegamos! - disse a andarilha, retirando a máscara pela primeira vez em dias. Sua beleza, antes uma benção, agora lhe parecia uma maldição.

Em resposta, a criatura apenas rosnou algo. Depois de tanto tempo, ela já estava acostumada, pois aquele era o único som que sua companheira de viagem emitia. Faziam quase dois anos que vagavam tendo apenas uma a outra como companhia, desde que Ofélia a salvara.

Ela deixou o pensamento divagar, levá-la até aquele dia que lembrava tão bem...

Ela corria pela trilha que levava até a floresta. O ar lhe queimava os pulmões, as pernas pareciam em chamas, mas precisava correr.

Em seu encalço, um grupo de quatro homens, liderados por Arthur, seu noivo.

EX-noivo, ela corrigiu-se.

-Volte aqui, gracinha! - um gritou.

- Isso, volte!

- Você não está ajudando ninguém, fugindo assim!

Cada frase era pontuada por uma rodada de risadas cínicas, e a distância ia reduzindo pouco a pouco. Ela não queria pensar no que aconteceria se não corresse. O desespero a movia, mas estava no seu limite. Ela foi alcançada.

-Viu, gracinha? Nós te pegamos...

Então veio o pior golpe: uma frase proferida por seu ex-noivo.

- Vamos ser gentis, moça... Você pode até gostar...

Mais uma rodada de risadas. E um som gorgolejante seguido de um grito.

O último atacante estava caído no chão, com a garganta destroçada. Aos seus pés, uma pequena criatura amarronzada e de orelhas e caudas compridos. A boca dela estava ensanguentada, ainda com os restos do pescoço do homem entre os dentes. Arthur foi o próximo.

Nenhum deles teve tempo de fugir.



- Eu devo tudo a você, Ofélia. Não teria passado do primeiro dia sem sua ajuda. - Disse, afagando os pêlos curtos e ásperos da criatura, que respondeu com seus característicos rosnados. - Vamos. Temos um longo caminho pela frente...

***

Ela jogou um saco ensanguentado em cima da mesa do velho. Dentro dele, dezenas de coelhos.

- São para nós, moça? Muito obrigado! - O ancião estava incrédulo. - Isso irá sustentar toda a tribo por uma semana!

- Não precisa agradecer, senhor. - A voz por trás da máscara estava rouca, por falta de água. - Só peço água para mim e para minha companheira.

- Claro, claro. Bebam o quanto quiserem de nosso poço.

Os coelhos não eram presa difícil para o arco da andarilha, feito da madeira de árvores das florestas de sua terra natal. Voavam por toda a Planície, em revoadas tão grandes que se confundiam com as nuvens. Na maior parte dos casos, eles ERAM as únicas nuvens presentes.

Mas água era um recurso muito mais precioso. Ofélia podia guia-la até umas pequenas fontes, mas quase sempre salobras e em quantidade insuficiente para as duas. Mas esta tribo tinha um poço, e pouca comida. A troca era fácil. E os habitantes poderiam ter uma informação...

- Se me permite a pergunta, moça, o que veio fazer aqui? Obviamente você não é daqui.

- Vim procurar uma pessoa.

- Uma pessoa? Não acho que terá sorte, moça. Não tem muita gente por aqui, e cada tribo vive muito distante uma da outra.

- Eu sei, mas ELA não pertence a tribo alguma. Pelo que ouvi, ela vive nas Planícies.

- Você não pode estar falando sobre a Bruxa. Ela é só uma lenda!

- Não, não é. Eu a encontrei, uma vez...

A velha estava parada no meio da rua. Parecia estar catando alguma coisa do chão, ignorando as carruagens que corriam de um lado para o outro. Mas uma carruagem havia parado.

- Vamos, velha! Saia já daí, ou eu a tirarei à força! - Gritou Arthur.

- Por que a demora? Se isso continuar iremos nos atrasar, temos hora com a modista, Artuhr! - A voz da noiva do rapaz veio de dentro da carruagem. - Resolva isso logo!

- Claro, querida. - E voltando-se para a velha, completou. - Ouviu, não é? Saia já!

Aparentemente ignorando o comando, a velha seguiu com sua tarefa, que já estava no fim. Mal saiu do caminho, a carruagem do casal seguiu a toda velocidade, quase atropelando-a. O olhar da velha acompanhou o veículo...

Horas depois, a velha se dirigia para a saída da vila, quando foi interrompida pela moça. O tapa na cara da senhora veio de surpresa, levando-a ao chão.

- Espero que esteja feliz, velha horrenda! Perdi minha hora com a modista! Agora terei que esperar uma semana para ter meu vestido novo!

Do chão, a idosa olhou incrédula para a jovem.

- E por um motivo tão fútil você me agride? Um vestido não é motivo para tal alteração, especialmente em uma jovem tão bonita.

- Não tente me bajular! - Outro tapa. - A culpa é sua!

O olhar da velha estava estranho. Um brilho estranho ardia em seus olhos.

- Você tem potencial, garota, mas sua mente está cheia de si mesma...

Outro tapa.

- Pare de falar baboseiras! Não negue a sua culpa!

- CHEGA! - A voz da senhora soava como um trovão. - Você merece uma lição.

A mudança súbita pegou a moça de surpresa. Ela pensou em fugir, mas estava paralisada. A velha estendeu a mão em direção à jovem, rodeada por uma leve luminosidade esverdeada.

- Eu tomarei seu nome e seu passado agora. Mas lhe darei a chance para recuperá-los, caso alcance minha morada, nas Planícies da Desolação. - A luminosidade tornou-se uma nuvem, que rodeava a garota. Aos poucos ela foi-se condensando em uma esfera verde na mão da idosa...

Depois daquele dia, nada foi o mesmo. Ninguém lembrava-se dela. Até mesmo ela havia esquecido o próprio nome. Os pais a expulsaram de casa, alegando que não tinham filha alguma. A mãe a acusava de ser amante do marido, chamando-a de rameira. Ninguém a reconhecia, nem mesmo o próprio noivo. Mas estava chegando ao fim.

- Não irei duvidar de seus motivos, moça. Irei ajudá-la.

As palavras do ancião foram uma surpresa para a andarilha. Estupefata demais para falar, ela apenas acenou com a cabeça e sentou-se.

- Quando eu era jovem, histórias sobre a Bruxa eram contadas ao redor da fogueira. Várias versões existiam, com conteúdos e ações diferentes da mesma personagem. Havia apenas uma coisa em comum entre todas elas: a bruxa vivia em uma caverna entre as montanhas, no centro das Planícies. Irei preparar um mapa que irá levá-la até as montanhas...

***

O caminho era difícil. Pedras soltas feriam os pés, envoltos apenas por panos. Os coelhos aqui eram muito numerosos, de modo que ela e Ofélia tinham o que comer, mas água era mais complicado: tinham apenas mais um cantil. Mas a viagem chegava ao fim. Podia ver a boca da caverna.

A entrada estava escura, mas não poderia mais ter medo. Não depois de tudo que havia passado. Ao menos a temperatura no interior era agradável.

Ela e Ofélia seguiam pela caverna sob a luz de uma tocha, improvisada com alguns galhos caídos e penas de coelhos. Seguiram por horas e mais horas, sempre andando por túneis que desciam cada vez mais para dentro da montanha. Quando começou a achar que a viagem estava perdida, uma ponta de esperança surgiu. Haviam chegado a um lago subterrâneo, e no centro dele, uma casa se erguia em uma pequena ilhota.

- Chegamos, Ofélia! CHEGAMOS!

Largando a coleira da companheira, a moça correu em direção a água e mergulhou. A sensação da água na pele era maravilhosa, mas ela aproveitaria depois. Agora precisava alcançar a casa. O vestido pesava embaixo da água, mas ela não se importava. Nadou por vários minutos, sozinha, até finalmente alcançar a casa.

A porta estava aberta. Ela entrou, sem importar-se de molhar todo o piso. Era uma casa pequena, com apenas a sala, com um espaço para uma fogueira no centro, dois quartos e uma despensa vazia. Não havia ninguém lá.

- Não pode ser. - ela já não podia evitar as lágrimas – Não pode ser... depois de tanto tempo, tantas dificuldades... Não pode estar vazia! Tem que ter alguém aqui!

- Mas há alguém aqui, minha querida.

A voz veio da porta. Mas quando ela olhou, apenas Ofélia estava parada na porta. O pêlo dela estava seco, ignorando o fato de que a criatura deve ter atravessado o lago a nado.

- Você e eu. Estamos as duas aqui. - Disse Ofélia, se erguendo nas patas traseiras.

Diante do olhar incrédulo da moça, a criatura começou a tremer, espalhando pêlos por todo o lado. A medida que ia fazendo isso, a forma dela também ia mudando, até que no final, a velha estava em pé na soleira da porta.

- Mas... mas... Ofélia... você... - A confusão era grande demais para que a moça pudesse criar uma frase coerente.

- Sim, desde o começo era eu. Não podia deixar que nada de ruim acontecesse a você. Você tem potencial, minha querida. E no caminho para cá, você provou isto.

- Mas por que? Por que você não disse nada?

- Fazia parte, minha querida. Quando retirei o seu nome, dois anos atrás, ainda não tinha certeza sobre seu caráter, embaixo de toda aquela arrogância e vaidade. Mas neste tempo que a acompanhei, pude ver como você é de verdade. Só resta mais uma coisa...

- Eu... eu entendo. - Ajoelhou-se perante a velha e disse – Peço perdão, por tudo que fiz à senhora. Por minha arrogância, durante nosso encontro. Eu estava errada...

O sorriso da Bruxa não cabia em seu rosto, ao ouvir estas palavras.

- Muito bem, minha querida. Eu a perdoo. E agora, lhe apresento uma proposta: Posso lhe devolver seu nome e seu passado, como lhe prometi. Poderá voltar à sua vida anterior, a vida vazia que levava... ou...

- Ou?

- Posso dar-te um novo nome. Uma nova história. E talvez, mostrar-lhe um caminho para seguir... Torne-se minha aprendiz.

- Era isto que tinha planejado desde o começo?

- De modo algum. Tudo que pensei foi em lhe aplicar uma lição... Mas acabei me afeiçoando a ti. O primeiro passo para o aprendizado da magia é que se abandone o seu passado: seu nome, família, amigos... De modo que, caso aceite tornar-se minha aprendiz, não poderei restaurar o que lhe tirei. Recuse, e lhe devolverei teu nome. Aceite, e viva aqui e aprenda comigo.

As palavras da senhora a fizeram pensar. Lembrou-se de como as pessoas que achou que conhecia bem a trataram quando se tornou uma estranha. Lembrou-se do olhar de Arthur quando a perseguia pela trilha da floresta. Das palavras duras da mãe. De como tudo isso parecia vazio.

- Eu... eu aceito.


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