18 de fevereiro de 2013

Quem Conta um Conto (Fevereiro): O Conto da Ísis || A matadora


A matadora

Há alguns anos, eu herdei de meu pai essa fazenda. Não é muito grande, e já não há muito trabalho a se fazer nela, pois, há alguns anos, este lugar tornou-se um deserto.

Quando eu era pequena, havia ainda alguns resquícios de mata, e ainda era possível ver alguns animais aqui e acolá. Todavia, mesmo naquela época, papai já sabia que o fim estava chegando... E, sentando-me em seu colo, inúmeras vezes ele me contou histórias do passado, do enorme verde, e do triste destino que nos espera.

Quando eu ainda era uma criança, papai e eu costumávamos de vez em quando viajar com meus três irmãos e mamãe. O mundo, em geral, tinha o mesmo aspecto: quase sem cores, arenoso, seco. Porém, de vez em quando, algumas ilhas de vida apareciam, e era para esses locais que costumávamos ir. Aquilo era uma forma de lembrar que ainda havia esperança nesse mundo, ainda era possível restaurá-lo.

Mas não mais. Com o tempo, foi preciso andar cada vez mais entre cada local verde, até que, um dia, desapareceram. Com eles, foram-se também os biribis, com seus corpos fofinhos e orelhas voadoras; os madobus, pequenos animaizinhos que rastejavam pelo chão; os patanaks, animais enormes que comiam apenas folhas... Até mesmo os minúsculos tropts, criaturinhas perversas que vasculhavam o terreno à noite e possuíam uma picada muito dolorida... Todos eles sumiram.

Entretanto, o pior é não ter sequer a esperança de fugir para outro local. Muito mais que a metade desse planeta já morreu, e o restante está seguindo o mesmo rumo rapidamente.

Hoje, muitas das tendas das famílias vizinhas encontram-se vazias, algumas até com os cadáveres ainda lá, putrefando há anos. As poucas famílias que ainda tentam sobreviver aqui já não dispõem do luxo de desperdiçar suas energias para cuidar dos mortos. Tudo o que podemos tentar é permanecermos vivos, e isso consome todas as nossas forças.

Papai dizia que, se cuidássemos de nossa terra, com carinho e com determinação, talvez fosse possível fazer com que algo crescesse outra vez, fazer a vida voltar a este planeta... ainda que vagarosamente.

Contudo, ele morreu no desespero. Trabalhou durante o resto de sua vida tentando recuperar, ao menos um pouco que fosse, do mundo que ele conhecia quando pequeno. Para tanto, sobreviveu à morte precoce de mamãe, e cuidou sozinho de nós após isso. Eu era muito jovem, não me lembro bem como aconteceu, mas um dos meus irmãos mais velhos me dizia que era melhor que eu não lembrasse. As circunstâncias em que esse irmão morreu, entretanto, eu também não lembro, mas todos diziam que foi uma tragédia ele ter morrido tão cedo.

- Apenas 372 anos.

- Mas está cada vez mais frequente isso.

- Não temos quase nenhum alimento, como podemos sobreviver?

- As coisas não são como antigamente. Morrer aos 600 anos hoje é quase façanha.

- Não duvido nada que, logo, logo, morreremos aos 200.

- Não diga uma coisa dessas!

- Mas é verdade!

Lembro bem dessa conversa. As senhoras que cuidaram do enterro de meu irmão comentavam. Elas estavam certas. Os poucos sobreviventes têm, hoje, cerca de 450 anos – e, entre esses, já não estão nem um de meus irmãos. A mais velha de todo o grupo, eu, não chego sequer a essa idade, e, com a pouca experiência que tenho, precisei lidera-los como pude.

Mas nada poderá nos salvar. Sei disso. Nossa única chance foi desperdiçada por mim há séculos atrás, e eu não ouso tornar isso público. Levarei esse segredo ao outro mundo, mesmo após o dia em que chegar minha vez.

Eu sei o que está matando tudo tão rápido. Vi-a naquele dia, quando voltava de uma breve vasculhada entre as montanhas pedrosas que cercam nossa quase extinta comunidade. Vi a matadora. Uma bebê! Não podia ter mais de 20 anos àquela época, mas já carregava um arco, uma aljava cheia, alguns biribis mortos e, puxado por um conjunto de cordas grossas, um temerek.

Sua aparência também era única. Seus cabelos enormes, pretos e em forma de trepadeiras logo chamavam atenção por sua exclusividade – ninguém nesse mundo poderia ter cabelos daquela forma. Aquela cor tão negra quanto a noite contrastava profundamente com seu vestido quase todo branco. As faixas que lhe cobriam diferentes partes do corpo, e pareciam grudar nele, também sobressaltavam aos olhos.

Porém, tão rápido quanto a vi, perdi-a de vista. Por alguns instantes, cogitei ter visto uma ilusão, uma esperança de resolver a situação... Mas rapidamente me dei conta de que não era esse o caso. Infelizmente, não fora rápido o suficiente.

Ela era real. Eu a tinha visto de verdade. Tinha encontrado a causa da morte de tantos seres.

Procurei por ela depois disso, durante anos, em vão. Desconfiávamos há tempos que havia um culpado, mas jamais fomos capazes de achá-lo... E, a menos que outros guardem o mesmo segredo, apenas eu realmente a vi.

Se eu tivesse reagido, se eu não estivesse paralisada só de olhá-la, talvez pudesse olhar com orgulho para as outras crianças hoje, feliz por tê-las salvo... Mas posso apenas olhar com pena, e desprezo a mim mesma, por não poder fazer mais nada por elas, senão guiá-las à sobrevivência.

E assim o fiz, até o dia em que a matadora veio ao meu encontro mais uma vez.

Eu não pude sequer reagir, assim como naquele dia. Sorrateiramente, ela apareceu diante de mim, sua aparência quase a mesma de anos atrás, mas já não tinha os animais consigo.

E a última coisa que vi, nos segundos seguintes, foi o sorriso no olhar dela, em meio às sombras que escureceram minha visão.


A Elefanta


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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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