14 de fevereiro de 2013

Para ler: Freud e o Estranho

É muito raro pessoas comuns como John e eu conseguirem mansões antigas para alugar durante o verão.

Um solar colonial, uma herdade, eu diria até uma casa mal-assombrada, para atingirmos o máximo da felicidade romântica – mas isso seria pedir demais ao destino.

De qualquer modo, eu afirmo categoricamente que há algo estranho nela.

Caso contrário, por que seria tão barata? E por que ficaria tanto tempo sem alugar?
Esse livro primeiro me chamou a atenção por trazer no elenco de contistas analisados o E.T.A. Hoffman, de quem estou atrás dos livros há algum tempo (e afinal encontrei-os em domínio público no Project Gutenberg). Consegui-o através de troca e claro que fiquei satisfeitíssima quando ele chegou e me pus a ler.

Afinal, Hoffman pode ter sido o princípio dessa história, mas o livro me brindou com muito mais do que eu pedira.

Freud e o Estranho reúne vários contos de natureza extraordinária – e também para além do macabro. São histórias que refletem conceitos freudianos; que foram lidas e comentadas pelo próprio Freud; histórias que no mais das vezes nos deixam arrepiados e desconfiados de tudo o que nos possa cercar (incluindo inocentes papéis de parede).

Nas páginas dessa coletânea encontramos ghouls desejosos de carne humana, sonhos premonitórios, mistérios insolúveis, passando desde a perda gradual e inexorável da sanidade de uma protagonista – no angustiante O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman – até uma série de suicídios inexplicáveis ocorridos sempre no mesmo lugar, à mesma hora, em A Aranha, de Heinz Ewers e uma gata vingativa envolvida com instrumentos de tortura medieval na contribuição de Bram Stoker, A Pele-Vermelha.

As histórias tratam de acontecimentos que ocorrem tanto num nível apenas subconsciente quanto exteriorizados – e o fato de que algumas histórias se passam apenas na mente dos personagens não as torna menos assustadoras. Afinal, o estranho pode assumir muitas facetas, pode representar simplesmente ‘O Outro’, de quem somos separados por uma questão de linguagem ou cultura – e aquilo que não conhecemos ou sobre o que não temos controle sempre terá o condão de nos amedrontar.

O mais interessante do livro, contudo, são as análises de cada uma das narrativas, bem como a contextualização dos autores e da época em que elas foram escritas. Uma boa obra de referência, com várias obras inéditas no Brasil e que é acessível tanto ao pesquisador quanto ao leigo curioso.


A Coruja


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