15 de dezembro de 2012

Para ler: Contos de Lugares Distantes

Você já se perguntou o que acontece com todos os poemas que as pessoas escrevem?
Aqueles poemas que elas não deixam ninguém ler?
Talvez eles sejam pessoais e particulares demais
Talvez só não sejam bons o bastante
Talvez a mera sensação de que alguém possa ler uma manifestação tão sincera
seja vista como
deselegante frívola boba pretensiosa melosa banal sentimental trivial tediosa excessiva obscura estúpida inútil ou apenas vergonhosa]
É o suficiente para dar a qualquer aspirante a poeta
Boa razão para esconder sua obra dos olhos do público para sempre.
Naturalmente muitos poemas são destruídos imediatamente
Queimados rasgados jogados na privada
Vez por outra eles são dobrados em quadradinhos
E enfiados sob o canto de um móvel bambo
(e assim se tornam muito úteis)
Outros ficam escondidos atrás de um tijolo solto ou num cano
ou lacrados no verso de um antigo despertador
ou colocados entre as páginas de um livro obscuro
que tem poucas chances de vir a ser aberto
Algum dia alguém pode encontrá-los
Mas provavelmente não.
A verdade é que a poesia não lida quase sempre não passará disto
Condenada a juntar-se ao rio vasto e invisível de refugo que aflui dos lugares distantes.
Bom
Quase sempre.
Em raras ocasiões
Alguns escritos particularmente insistentes vão fugir para um quintal ou uma viela
Soprados pelo vento ao longo de um aterro na beira da estrada
E descansar enfim num estacionamento de shopping center
assim como tantas outras coisas.
É aqui que algo extraordinário tem lugar
Dois ou mais escritos poéticos vagam até se encontrar
Devido a uma estranha força de atração que a ciência desconhece
E vagarosamente grudam até formar uma bolinha disforme
Se deixada em paz, essa bola gradualmente fica maior e mais redonda pois
confissões segredos versos livres reflexões desejos e cartas de amor não enviadas
também se prendem uma a uma.
Não lembro exatamente como esse livro veio a atrair minha atenção... mas o caso é que ele já estava sob o meu radar quando, na minha última visita à Shakespeare and Company em Paris, dei de encontro com ele e me sentei para folheá-lo. Foi por muito, muito pouco que não o levei comigo.


Curiosamente, dois dias depois, já em Lisboa, recebi um email avisando que os livros da Cosac Naify estavam por metade do preço apenas e unicamente naquele dia. Contos de Lugares Distantes era um dos livros do catálogo e não tive dúvidas: encomendei-o imediatamente.

Na segunda vez que o encontrei em promoção, corri para providenciá-lo para minha desenhista favorita, porque o tempo todo que eu lia, só lembrava da Dani, e o aniversário dela está chegando...

Dani: E logo após receber essa maravilha de livro de você já encomendei o A Chegada também dele. Sou mesmo sua filha, fanática incorrigível...

Enfim... tão logo cheguei ao Brasil, encontrei o volume me esperando e ele foi o primeiro livro que li em meu retorno.

O que se há para dizer sobre Contos de Lugares Distantes para além do fato de que o livro é uma verdadeira obra de arte, uma caixinha de surpresas, um maravilhoso tesouro e que minha relação com ele começou como amor à primeira vista?

Não se trata exatamente de uma graphic novel, mas as ilustrações têm tanta importância quanto o texto, revelando profundezas desconhecidas em contos como História do Vovô ou nos levando para uma viagem em um poema visual como no meu favorito Chuva ao Longe.

Dani: Como não se apaixonar por algo assim? Esse livro foi mesmo um achado.

É um livro incrivelmente poético, por vezes melancólico, mas sempre, sempre encantador. Surpreendente ao casar imagens e palavras que parecem contar histórias diferentes – mas que funcionam tão bem uma vez que você as enxerga em seu conjunto, o prosaico e o extraordinário de mãos dadas.

Dani: Pode-se dizer que é escrito em letras e traços simultaneamente...

Um livro que te faz terminar com um sorriso no rosto e a sensação de que seja lá quais sejam nossas preocupações, humores e tristezas, há tempo para olhar além do próprio nariz e surpreender-se com o mundo.

Dani: É esse, em essência, o grande trunfo da arte, minha querida... ^^


A Coruja


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7 comentários:

  1. Já queria ler este livro desde que o vi na estante da Lu no Skoob. Agora quero ainda mais, depois desta declaração de amor. Pena que Cosac & Naify mete a faca, e mesmo na Estante Virtual está caríssimo!!

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    1. Aaah sim, e vc está seguindo meu conselho da resenha conjunta!! Adorei os comentários da Dani. Simples, pontuais e muito bem colocados.

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    2. Como eu dei esse livro para a Dani de aniversário, queria que ela comentasse também... Aí mandei a resenha pronta e disse "Dani, manda bala".

      E concordo com a facada, mas já consegui encontrá-lo em promoção duas vezes... o negócio é ficar de olho... porque realmente vale muito à pena, é um livro lindo demais...

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  2. Não sei como me comunicar com a DANI, mas vou deixar isto aqui:

    http://1.bp.blogspot.com/-a5q_gnFUL4I/UMuyYl79SrI/AAAAAAAADNc/drsfxGg_dW8/s1600/livros_mesa.jpg

    veja q é possível fazer uma mesinha de centro com as crônicas de gelo e fogo

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    1. AMEI a foto!!! ^^ Mas a mesinha que estou planejando é um pouco diferente. Se duvidar terá cadeirinhas de Pratchett para acompanhar XD.

      Aliás, se quiser falar comigo, posso não ter facebook, mas uso meu e-mail, sim. Pode falar comigo por lá a vontade.

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    2. Os emails da gente estão lá na seção 'zoológico' para o caso de quererem mandar alguma coisa direta para nós... mas dá para se comunicar com a gente aqui pelos comentários também... a Dani tem ordens de sempre responder quando comentam algo para ela XD

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    3. "ordens"? Somos mesmo seus meros súditos, hein... ^^"

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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