11 de dezembro de 2012

Para ler: Branca dos Mortos e os Sete Zumbis

"...a rainha deu à luz uma linda menina, a pequena Branca, que nasceu com os lábios vermelhos como sangue, os cabelos negros como as penas de um corvo e a pele branca como os olhos de um defunto."
Um dos últimos lançamentos da Nerdbooks nos traz uma proposta interessante: o que acontece quando os contos de fadas clássicos encontram os ícones do terror atual? Quando Fábio Yabu (sob o pseudônimo de Abu Fobiya) escreveu a coisa toda, o resultado foi ótimo.

Bebendo de fontes como Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, Stephen King e muitos outros, os contos de fada clássicos ganharam uma roupagem que deixariam os Irmãos Grimm orgulhosos. Do conto-título, que abre o livro, até o conto final, não há como evitar aquela nostalgia, quando lembramos das histórias que conhecemos quando criança, adaptadas pela Disney, e adicionar uma boa dose de estranheza, asco e muitas outras coisas diferentes. Uma coisa que achei bem interessante no livro foi o fato de que os contos, que funcionam bem por si só, estão interligados (e isso o Azaghal disse em um nerdcast, não me olhem assim...). Seja por uma localidade ou a presença de personagens acabam transformando o livro em uma única história, contada de maneira não-linear, e sob pontos de vista diversos.

Lu: Foi um lançamento bem oportuno, se me permite invadir sua resenha, Dé. Agora no dia 20 de dezembro, comemoramos 200 anos da publicação do primeiro volume de contos de fadas dos Irmãos Grimm.

E concordo na questão da interligação. Diverti-me imensamente com a forma como as histórias se cruzavam, com a revelação da verdadeira identidade de algumas personagens - foi preciso um bocado de coragem para fazer o tipo de transformação pelo qual alguns personagens icônicos passam (destaque para os elos entre Cinderela, Branca de Neve e a Bela Adormecida).


Mas embora eu tenha gostado muito do livro, não consegui ter medo ou me assustar com os contos. Não sei dizer bem o motivo disto, mas para mim o livro, sem dúvida nenhuma macabro, não causou calafrios; ou aquela impressão de estar sendo vigiado mesmo estando sozinho. Eu não corria para acender as luzes durante a noite e nem respirava aliviado depois de fazê-lo (sim, eu realmente faço isso quando leio alguns livros de terror). Com exceção do conto Bela Incorrupta, não senti aquele frio na espinha, embora tenha ficado enojado mais de uma vez.

Lu: Curioso, o conto que mais me deu arrepios foi esse também...

Bem, de uma forma geral, eu me diverti com o livro. A despeito da suposta temática de horror, foi uma leitura até bem leve - muito mais bizarro que macabro. E olha que eu sou medrosa, mas tive, de uma forma geral, a mesma reação do Dé.

Não é, vejam bem, que o livro seja ruim. Mas por toda a propaganda e festa feita em torno dele, eu esperava mais. Do jeito que a história se desenrolava na minha cabeça, parecia mais um filme B de terror com litros de sangue falso jorrando de forma espantosamente inverosímel, do tipo que faz você rir (ou sentir náuseas para os de estômago mais fraco).

Acho que muito da minha questão com o livro foi a linguagem. Eu estou acostumada a ler contos de fadas e esse tipo de história tem uma cadência diferente - são narrativas que foram primeiro pensadas como tradição oral; histórias para serem contadas em voz alta em vez de simplesmente lidas. Elas têm musicalidade.

Só dois contos do livro me fizeram ter essa impressão: Os Três Lobinhos (que foi também meu conto favorito) e O Monstro (que só me fez pensar n'"O Corvo" de Poe).


Se muito não me engano, essa foi a intenção. Li O Corvo depois de ler O Monstro, mas a homenagem ficou clara logo de início.

Lu: Eu tenho certeza que foi a intenção... continuando...

Além disso tudo, as histórias originais dos contos de fadas já são por si só histórias de crueldade e mórbido fascínio. Não é preciso muito para acentuar esse aspecto sombrio, e acho que Branca dos Mortos e os Sete Zumbis acaba pesando um pouco a mão nisso. Seria melhor trabalhar a questão da expectativa, da ansiedade, do que simplesmente jogar pústulas, verrugas e tecidos necrosados em cima do leitor.


A parte visual do livro é de encher os olhos. As ilustrações estão ótimas, mantendo bem o clima da história. A capa também é um show à parte e enche a vista. Ainda possível encontrar erros de digitação aqui e ali, mas nada sério ou absurdo. No geral, eu gostei do livro.

Lu: De uma forma geral, os livros deles têm um projeto gráfico de encher os olhos. Terminei de ler essa semana o novo Protocolo Bluehand: Zumbis e fiquei estupefata com o detalhismo e perfeccionismo dos responsáveis pelo livro.

E não conte mais nada, já que pretendo encomendar esse livro semana que vem. =P

Lu: Ok, ok, fique calmo...

Por fim, a parte mais divertida, claro, é que estamos lendo Branca dos Mortos e os Sete Zumbis dentro do Clube do Livro - e a leitura e debate conjunto sempre nos faz alcançar novas interpretações, coisas que nunca pensamos antes - além de render muitos comentários cretinos e outras fanfarronices que baixam o nível de vez em quando, mas é sempre bem engraçado...


O Bode
(e uma Coruja metida...)


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5 comentários:

  1. adorei este esquema de resenha conjunta! vcs deveriam fazer mais vezes. gera uma discussão, um conflito sabe...

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    1. Huahuahua...

      A gente até tenta, mas na maior parte das vezes, o tempo é curto, nem todo mundo lê o mesmo livro na mesma época... Mas vamos tentar fazer mais resenhas assim ;)

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    2. os do clube do livro não são mais ou menos na mesma época??

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    3. Sim, os livros do clube do livro a gente lê todo mês... mas Branca de Neve a gente está lendo no booktour. Isso significa que... o livro é do Dé (eu dei de presente pra ele de aniversário), ele leu e encheu de post-its com comentários cretinos... aí o livro veio para mim, que coloquei mais post-its, foi para a Angel, vai depois descer para Santa Catarina, subir por Minas, Bahia, e depois de um longo percurso, voltará para o Dé (com post-its colados caindo pelas lombadas)...

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    4. E eu finalmente terei a chance de ver os comentários dos demais membros do clube. Até hoje só recebi livros com post-its da Lu. =P

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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