18 de setembro de 2012

Desafio Literário 2012: Setembro - Mitologia || A Lenda de Sigurd & Gudrún

A fumaça está morta,
amaina a pira;
as cinzas que sopra o vento
são sobras frias.
Como o sol que passou
Sigurd foi-se;
e a bela Brynhild queima
como brasa ardente.

Deles a desdita
e a felicidade se acabam;
mas a angústia de Gudrún
maior se torna.
A vida a revolta,
porém à vida não renuncia,
errando sem rumo
na floresta a sós.
Ganhei esse livro de presente do tio Fafa numa das últimas vezes em que ele esteve aqui. Fazia parte dos meus planos lê-lo como parte da maratona que fiz ano passado para escrever o especial sobre Tolkien, mas não dei conta de encaixá-lo em meu cronograma já completamente furado pela releitura do Silmarillion até O Senhor dos Anéis. Aí logo depois surgiu a lista de temas do Desafio Literário 2012 e quando bati o olho no tema de setembro, ficou decidido: A Lenda de Sigurd e Gudrún ia entrar para ela.

O livro é dividido em duas partes – a primeira com a história de Sigurd, desde o início do mundo, quando das profecias sobre o herói que auxiliaria os deuses no Ragnarök, e a segunda, com a balada de Gudrún, a segunda esposa de Sigurd, depois que deram a ele a poção para que o herói esquecesse Brynhild – mais extensas notas tanto do próprio Tolkien quanto de seu filho acerca da métrica utilizada, das diferentes versões da história e do significado das histórias e personagens.

Creio eu que mesmo sem nunca ter lido alguma coisa de mitologia nórdica ou ouvido a ópera de Wagner, todo mundo conhece a história de Sigurd (ou Sigfried), mas a ‘continuação’ após a morte do herói e de sua valquíria é mais obscura – eu mesma nunca tinha ouvido falar nela.

É interessante porque nem sempre pensamos muito no que vem após o final da história, no que acontece com aqueles que ficaram para trás. Brynhild deixa-se queimar na pira junto de Sigurd e os dois se vão epicamente de cena. Gudrún, a esposa legítima – ou legítima em termos, porque Sigurd a desposa após enganarem-no para beber uma poção que o faria esquecer de Brynhild – é esquecida, deixada de lado, sem qualquer papel neste grande final.

A balada – ou, mais corretamente falando, a lai de Gudrún não é menos trágica que a canção dos Völsung, família desgraçada da qual Sigurd descende. Ela não é realmente culpada de nada – a aliança sua com o herói foi pensada por sua mãe e seus irmãos – mas isso não a salva de reentrar na história para sofrer ainda mais, sendo forçada a um novo casamento com ninguém menos que Átila, o Huno (ou Atli, na versão dos poemas de Tolkien) para tentar fazer uma aliança entre o reino dele e de seu irmão.

Eis então mais sangue, mais traições, mais tristezas – em momentos ecoando o mito grego de Procne, que considero um dos mais trágicos dos contos clássicos (e considerando que em alguma nota mais adiante há uma menção a esse mito, não creio que o caso seja coincidência).

Não é uma leitura fácil - afinal, trata-se de uma poema épico, com linguagem grandiosa... mas vale à pena conhecer.

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Lenda de Sigurd & Gudrún
Autor: J. R. R. Tolkien
Tradutor: Ronald Kyrmse
Editora: Martins Fontes
Ano: 2010
Número de páginas: 440


A Coruja


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