15 de setembro de 2012

Desafio Literário 2012: Setembro - Mitologia || A Gênese Africana

- Esse objeto é um pedaço de madeira. Não vai cantar se não tiver coração. Você tem de lhe dar um coração. Carregue esse pedaço de madeira nas costas quando entrar em batalha. A madeira tem de retinir com os golpes da sua espada. A madeira tem de absorver o sangue derramado, sangue de seu sangue, alento de seu alento. A sua dor tem de ser a dor do alaúde, sua fama, a fama do alaúde. A madeira não será mais como a madeira de uma árvore, será penetrada pelo seu povo e fará parte dele. Ela não viverá apenas com você, mas com seus filhos. A música que vier do seu coração ecoará nos ouvidos de seu filho e continuará vivendo entre o povo, e o sangue da vida de seu filho, derramando-se de seu coração, correrá pelo seu corpo e continuará vivendo nesse pedaço de madeira. Mas Uagadu vai se arruinar por causa disso.
Mais um livro para o Desafio Literário 2012, mais uma tentativa de sair do padrão, do confortável, do conhecido: decidi me aventurar pelos territórios da mitologia africana. E, cara, como me diverti...

Os mitos coletados nesse livro têm um sabor curiosamente familiar, e soa como as história que ouvi na casa da minha avó - histórias de trancoso, fábulas fabulosas, animais falantes, reis e princesas e até uma Atlântida - em sua maioria, estranhamente isentos das morais com que nos acostumamos ao final de algumas narrativas desse tipo e, às vezes, sem pé, nem cabeça ou qualquer forma minimamente lógica.

E isso não é uma falha, uma crítica ou um defeito. Tem gente que acha que só os mitos gregos clássicos valem de alguma coisa porque... não tenho bem certeza de que diabos de argumento esse pessoal usa. Mas o Complexo de Édipo entra em algum momento na história...

Fiquei esperando por um bom tempo o surgimento da Aranha, que, segundo aprendi com Gaiman, é o Senhor das Histórias. Creio, contudo, que Anansi é de outra região que não aquela de onde as histórias de A Gênese Africana foram colacionadas - povos entre os quais o Chacal é o rei - e, muitas vezes, também o bobo (e se quiser encontrar uma referência para a figura do Chacal africano nas fábulas européia, eu diria que ele é o equivalente tanto do Lobo quanto da Raposa).

As muitas histórias apresentadas variam bem em gêneros - há alguns contos moralizantes, relativamente recentes, trazendo já influências do Islã; há histórias sobre o surgimento do mundo, e sobre como o homem deixou o ventre do mundo e em tudo foi ensinado pela formiga; há histórias de guerras e das conseqüências que a soberba pode trazer para um povo.

A edição que li tem uma introdução bem interessante sobre Leo Frobenius, o intrépido antropólogo alemão que viajou ao coração da África recolhendo essas histórias, bem ainda como incríveis ilustrações e reproduções de pinturas rupestres encontradas durante a expedição. Pelo que entendi, A Gênese Africana traz apenas uma fração do material juntado por Frobenius. Espero encontrar mais dele no futuro.

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Gênese Africana
Autor: Leo Frobenius
Tradutor: Dinah de Abreu Azevedo
Editora: Martin Claret
Ano: 2010
Número de páginas: 244


A Coruja


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4 comentários:

  1. Acho que li em algum lugar sobre como o Chacal é o rei e o tolo na mitologia africana, é uma dualidade realmente interessante, algo bem característico de algumas histórias da mitologia africana e dos indígenas norte-americanos, se estou lembrando direito agora... Outro livro pra lista do 'eu quero' x)

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    1. Eu creio que o Chacal que a gente conhece pré-contato com mitologia africana é aquele que aparece nos filhos de Anansi, do Gaiman...

      Leia mesmo, esse é bom que tem edição de bolso, tranquilo demais...

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