30 de agosto de 2012

Projeto Pratchett: Monstrous Regiment

"You take a bunch of people who don't seem any different from you and me, but when you add them all together you get this sort of huge raving maniac with national borders and an anthem."
Um país minúsculo, dominado pelo fanatismo religioso – com um deus completamente insano, que está sempre emitindo decretos chamados “Abominações”, incluindo em sua lista negra alho, gatos, a cor azul, ruivos e chocolate -, de espírito belicoso e fronteiras flutuantes que mudam conforme a estação: eis a descrição de Borogravia, uma nação que caminha a passos largos para o aniquilamento.

Praticamente não há mais rapazes nas aldeias, todos recrutados para o exército – a instituição mais importante do país. O inverno está às portas, quase não há comida e a governante da nação, a Duquesa, está, muito provavelmente morta (e há algumas décadas já). Ninguém fala, ninguém pensa, mas todos sabem que estão perdendo a guerra.

O irmão de Polly, Paul, é um dos soldados desaparecidos em batalha. Polly sabe que, se o irmão estiver morto, ela está perdida – pela lei de Nuggan (o deus insano de Borogravia), mulheres não podem herdar bens que venham da família paterna, ainda que sejam bem mais capazes com números que seus irmãos, o que significa que ela estará na rua, sem qualquer opção além de tentar arranjar um casamento e se submeter aos caprichos de algum dos (raros) homens que sobraram.

Como ter de se casar apenas para ter um teto sobre a cabeça não está nos planos de Polly, ela corta os cabelos, se veste com roupas masculinas (outra Abominação sob Nuggan) e se alista no exército. Junto com o vampiro Maladict, o troll Carborundum, um igor chamado Igor, e os humanos “Tonker” Halter, “Shufti” Manickle, “Wazzer” Goom e “Lofty” Tewt, ela forma o último pelotão de recrutas de Borogravia.

O que Polly talvez não esperasse é que ela não fosse a única a esconder seu verdadeiro sexo e marchar para a guerra... Ou a diferença que um par de meias bem posicionado pode fazer.

Quando comecei a ler, pensei que estava diante de uma versão de Mulan, mas deveria ter me lembrado que a heroína chinesa não é o único exemplo de mulher partindo para a batalha. Borogravia me faz lembrar muito da Alemanha, e também da Inglaterra, para não dizer que algumas situações fazem lembrar claramente de Joana D’Arc.

Vimes aparece pela tangente no livro, como representante de Ankh-Morpork na Aliança de nações que se levantou contra Borogravia – embora ele esteja mais tentado a torcer pelo pelotão de recrutas, especialmente depois de Polly aplicar um chute nas regiões baixas de ninguém menos que o príncipe herdeiro da Zlobenia, Heinrich – candidato potencial a assumir o governo de Borogravia caso seja provado que a Duquesa está morta ou uma vez que a guerra esteja ganha, o que vier primeiro.

Já cheguei à conclusão que todos os livros que venham com o Vimes em qualquer capacidade que seja, entrarão em minha lista de favoritos – a essas alturas, não há muitos livros da série de Discworld que eu não considere favoritos... E isso não é apenas pelo personagem (até porque aqui ele aparece muito pouco), mas especialmente porque todos os livros em que ele aparece têm uma temática mais séria, muitas vezes política.

Monstrous Regiment ainda é cômico – afinal, é Pratchett e é Discworld, e risadas são a primeira coisa que você deve esperar ao abrir qualquer um de seus livros – mas não se resume a isso, nem de longe. E eu bato palmas para o autor porque ele é um dos raríssimos escritores de Fantasia que sabem usar personagens femininos.

As mulheres de Pratchett são fascinantes. E não apenas as bruxas. Elas são poderosas, fortes, decididas. Vovó Cera do Tempo, Angua von Überwald, Adora Dearheart, a própria Polly Perks e todas as suas companheiras de armas desafiam o padrão de muitas personagens femininas na literatura fantástica.

Seja como for, mais um excelente, maravilhoso livro, daqueles que te fazem remexer na cadeira e pensar com seus botões “mas não é que ele tem razão?”.
"This was not a fairy-tale castle and there was no such thing as a fairy-tale ending, but sometimes you could threaten to kick the handsome prince in the ham-and-eggs."


A Coruja


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4 comentários:

  1. Sem alho e nem chocolate? Esse deus não sabe coordenar uma religião!

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  2. Um livro de Pratchett que eu li \o/ (estou tentando aumentar minha lista de lidos, mas me faltam condições financeiras -.-) Monstruous Regiment foi um dos meus preferidos justamente pela forma como o clichê da mulher-que-se-veste-de-homem foi trabalhado. A forma como se tornou um símbolo pra uma discussão muito maior - dos papeis de homem e mulher de forma geral - foi mais uma prova do nível de Terry Pratchett como escritor. E você tem razão: todas as personagens femininas dele são desenvolvidas de uma forma magnífica x) Dá gosto de ler e se inspirar

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    1. Eu fico tão, mas tãoooooooooooo feliz toda vez que alguém me diz que está lendo o Pratchett...

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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