21 de julho de 2012

Do Gênesis ao Apocalipse: O Engenhoso Fidalgo de La Mancha


Esse talvez tenha sido o livro mais fácil de escolher para os títulos de Do Gênesis ao Apocalipse - não apenas porque ele é um dos grandes marcos da literatura, como é um marco também na minha história pessoal.

"Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito tempo que vivia um fidalgo dos de lança em cabide, adarga antiga, rocim fraco e galgo corredor."
Meu primeiro contato com o engenhoso fidalgo de La Mancha foi graças a Monteiro Lobato, num dos volumes do Sítio do Pica-Pau Amarelo: Dom Quixote das Crianças. Eu me apaixonei perdidamente pelo personagem e, ao longo dos anos, revisitei-o muitas vezes, até achar por bem ler o original de Saavedra em vez de ficar apenas na adaptação.

A experiência teria sido traumática, não fosse minha intimidade com a história advinda de todas aquelas leituras na infância. Eu tinha doze anos e mesmo que tivesse devorado um dicionário inteiro antes de me aventurar pelos dois volumes de Dom Quixote, meu vocabulário estaria muito aquém do desafio. Até porque muitas das expressões idiomáticas que aparecem no livro são da época e da região em que o livro foi escrito.

Eu morro e continuo resmungando com relação à lança em cabide...

Mas mesmo aos trancos e barrancos nas expressões que não conhecia, eu terminei o livro todo e já mais de uma vez o revisitei. Lobato me permitiu ter a familiaridade para entender no contexto aquilo que eu não conhecia na realidade e de toda forma, não há como não se deixar dominar e emocionar pela figura de Quixote.

O livro é considerado o primeiro romance moderno, rompendo com o formato clássico de narrativa medieval, formatado em versos e epopéias, peças de teatro (e é bom lembrar que Shakespeare é contemporâneo de Saavedra), tratados filosóficos e científicos. Antes de Dom Quixote não parece haver nada parecido com uma longa narrativa ficcional em prosa.

Nada disso é particularmente importante na jornada que fazemos ao lado do cavaleiro andante e seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Prosa ou poesia, há poucas histórias tão tragicamente humanas, tão incrivelmente picarescas.

A história nos narra como Alonso Quijano, nosso protagonista, após ler romances de cavalaria em excesso, perdeu a razão e passou a acreditar-se um cavaleiro andante – isso numa época em que a instituição da cavalaria já não mais existia.


Adotando o nome de Dom Quixote, ele sai pelo mundo montado em seu Rocinante, disposto a combater o mal, auxiliar os necessitados e suspirar pela mão de sua doce Dulcinéia – uma guardadora de porcos que em sua mente se transforma em doce e delicada dama.

Lá pelas tantas, ele consegue seduzir para o cargo de seu escudeiro seu vizinho, o prático Sancho Pança, com promessas de fazê-lo governador de uma ilha.

Não cabe aqui tratar de todas as aventuras e principalmente desventuras em que Quixote e Sancho se metem pelos delírios do primeiro. Cometerei o pecado de dizer que o romance se beneficiaria dos cortes de um editor. Há uma enfiada de histórias e tramas paralelas, verdadeiros tratados sobre moral, piedade ou armas, coisas que de nada beneficiam a trama principal.

Mas no que nos interessa, em sua essência, é difícil encontrar algo com a sensibilidade de Dom Quixote. É uma história sobre loucura e sobre fé, sobre esperança, sobre amizade. Há idealismo, inocência, lealdade. Em sua hilaridade, Quixote é um personagem eminentemente trágico, cujo fim parte o coração do leitor. Partiu o meu.

Em seus delírios, Quixote enxerga muito além das pessoas ditas sãs. Ele enxerga e tem coragem de denunciar as injustiças que encontra pelo caminho – e pela coragem de fazer alguma coisa, é constantemente maltratado.

E a despeito disso, ele não desiste. Não importa o quanto apanhe, Quixote não desiste. E mais extraordinário ainda: Sancho Pança, o prático Sancho que se juntou à aventura pensando apenas nos ganhos também não desiste de Quixote.

A força do romance de Saavedra se comprova não apenas pela sua atualidade, mais de quatrocentos anos depois de publicado; pelo fato de ter sido recentemente foi escolhido a mais importante obra de ficção de todos os tempos por um júri de famosos escritores e críticos ou mesmo pela forma como todos conhecemos seus personagens mesmo que nunca tenhamos chegado perto de seus livros.

Tão emblemático, tão poderoso, o Dom transformou-se num adjetivo. Diz-se quixotesco aquele que é sonhador, romântico, desligado da realidade. Alguém que é irremediavelmente idealista.

Quixotescos, não o deveríamos ser todos?


A Coruja


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