31 de julho de 2012

Clube do Livro (Julho) - A Máquina do Tempo

O Viajante do Tempo (como o chamaremos por uma questão de conveniência) expunha-nos um intrigante problema. Seus olhos cinzentos e brilhantes faiscavam e seu rosto, habitualmente pálido, se inflamava de animação. Na lareira, as brasas ardiam vivamente e a luz suave das lâmpadas incandescentes no candelabro de lírios de prata refletia-se nas bolhazinhas que se formavam e desmanchavam dentro de nossos copos. As poltronas, cujo desenho era de nosso próprio anfitrião, envolviam-nos num abraço acariciante, em vez de apenas servirem de assento. Estávamos imersos nessa deliciosa atmosfera de depois do jantar, quando os pensamentos vagueiam preguiçosamente, libertos do rigor da precisão. O Viajante do Tempo, pontuando suas palavras com o dedo magro em riste, explicava-nos o caso, enquanto nós, recostados às nossas poltronas, admirávamos sua maneira apaixonada e engenhosa de desenvolver o que, então, nos parecia mais um de seus paradoxos.
Todo mês de julho, no Clube do Livro, já é tradição lermos algum livro que tenha uma viagem. Em 2010, foi uma bela jornada pelas páginas de O Dia do Curinga (que até hoje detém o título de debate com maior participação da turma); em 2011 fomos pelos mares com 20.000 Léguas Submarinas. Esse ano nos aventuramos pelas brumas do tempo com o clássico que se não inaugurou, ainda é o marco inicial mais importante do gênero: A Máquina do Tempo, de H. G. Wells.

É engraçado, mas embora seja celebrado como tal, não foi Wells quem iniciou a nobre tradição dos viajantes no tempo. Antes dele há histórias em mitologias pelo mundo, o Rip Van Winkle de Washington Irving, Um Conto de Natal, de Dickens e o divertidíssimo A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court de Mark Twain, que ainda hei de resenhar por aqui... Mas antes de Wells, não conheço nenhum autor que tenha tentado dar uma explicação científica para a questão da viagem temporal.

E, ainda que Wells tivesse em mente fazer de sua história uma alegoria social, para os leitores da época e de hoje, o mais fascinante ainda é a idéia da possibilidade de atravessar o tempo, ser capaz de enxergar passado e futuro e alterar a ambos. Nas histórias citadas, as viagens são feitas por um motivo ou circunstância pessoal do protagonista ao passo que Wells nos abre a possibilidade de qualquer um ser capaz de se locomover entre dimensões.

Para entender A Máquina do Tempo em sua totalidade, é preciso entender um pouco do contexto histórico em que Wells a criou. A primeira versão da história, foi publicada ainda em 1888, com o título de The Chronic Argonauts. Virada de século, Revolução Industrial, novas e incríveis tecnologias surgindo todos os dias, cidades crescendo, riqueza e prosperidade... mas também grandes desigualdades sociais, homens, mulheres e crianças forçados a trabalhar doze, quinze, dezoito horas nas fábricas por um salário miserável, revoltas, greves, fome. O período de mudança do século XIX para o XX foi de extraordinário desenvolvimento, mas também de grandes decepções.

Essa situação está implicitamente explícita na relação entre os Eloi e os Morlocks. Numa sociedade sem equilíbrio, provocada por qualquer que tenha sido o cataclismo que sobreveio o mundo no futuro visto pelo Viajante, duas espécies diferentes evoluíram do ser humano - os Eloi, belos e frágeis, mas também preguiçosos e idiotizados, servindo pacificamente como rebanho para os Morlocks, que os usam como alimento.

O Viajante identifica claramente os Eloi com a classe rica ociosa e os Morlocks com a classe pobre trabalhadora. Nesse contexto, o que significa o fato de uns devorarem outros não é exatamente sutil. Tampouco é extremamente gratificante a idéia de pobres devorando ricos no espeto, porque na história, as duas espécies representam degenerações resultantes do sistema social que funcionava à época – e que sobrevive ainda hoje com não muitas mudanças.

A Máquina do Tempo não é sempre um livro fácil ou mesmo otimista. Tampouco maniqueísta, uma vez que em nenhum momento Wells toma realmente partido de qualquer das facções apresentadas. Ele é um alerta, um aviso de que, a permanecermos no caminho em que estamos, o consumismo e descarte desenfreados, a exploração e uso irracional de recursos – quer sejam eles naturais ou humanos – resultará em nada mais que um mundo estéril, desprovido de qualquer esperança e mesmo de consciência dessa desesperança.

O alerta continua, infelizmente, bem válido.


A Coruja


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