23 de junho de 2012

Do Gênesis ao Apocalipse: Um Gosto Mórbido por Ossos


E chegamos aos tempos da Idade Média!

Na minha linha literária-temporal desta coluna, este específico período foi um pouco sofrido, porque não conseguia me decidir sobre o quê, exatamente, queria escrever, em que aspecto da Idade Média me focar. Estou meio que dando grandes pulos de uma época para outra e preferia que o livro desse mês estivesse mais perto do período clássico dessa era que da Queda do Império Romano ou do Renascimento.

Ao mesmo tempo, não queria pegar para resenhar aqui um dos tratados filosóficos dos santos da época. Primeiro porque me falta no momento o tempo para mergulhar nos escritos de Agostinho ou Aquino e segundo porque não é iniciar um debate sobre o sexo dos anjos o objetivo desse espaço.

Assim, depois de muito quebrar a cabeça, afinal encontrei uma indicação interessante, pus-me a ler... e quase que imediatamente fiquei apaixonada. Feliz de mim que esse é o primeiro livro de uma série e infeliz do meu tempo, que são vinte volumes pela frente...

Na bela e sensacional manhã de princípios de maio em que verdadeiramente se pode considerar que começou todo o sensacional caso das relíquias de Gwytherin, o irmão Cadfael estava a pé desde muito antes de tocar a matinas, a transplantar rebentos de repolhos antes que se levantasse o vento diurno. Todos os seus pensamentos estavam focados em idéias de nascimento, crescimento e fertilidade, portanto muito longe de túmulos, ou relíquias, ou mortes violentas, fossem de santos, pecadores ou homens comuns, decentes e falíveis como ele próprio.
Um Gosto Mórbido por Ossos é o primeiro livro da série que traz como protagonista o irmão Cadfael, um monge beneditino, galês, ex-cruzado e excelente botanista, com um senso de humor por vezes não muito condizente com a batina, um pendor para a análise da natureza humana e, por conseqüência, para a investigação criminal.

Cadfael é intuitivo, mas também observador e por ter rodado mundo e experimentado a vida antes de se encerrar na Abadia de Shrewsbury, tem uma saudável desconfiança de explicações milagrosas e superstições em geral. E também é capaz de compreender as paixões humanas como nenhum de seus companheiros na missão que se desempenha nesse primeiro volume – exceto, talvez, o bom irmão John – é capaz de fazê-lo.

Tudo começa quando o Prior Robert, lança sua ‘campanha’ para adquirir alguma relíquia sagrada para a glória da Abadia (e sua também, é claro). Embora não sejamos tomados como cúmplices das artimanhas lançadas nos bastidores, é bastante óbvio desde o começo – tanto para nós quanto para Cadfael – que toda a história de milagre de santa Winifred curando irmão Columbanus da loucura é na verdade um plano muito bem arquitetado para dar força à demanda do prior Robert de transladar os ossos da santa de Gales para a Inglaterra (o que, aliás, aconteceu na realidade).

Sendo, ele mesmo, galês, o irmão Cadfael entra para a expedição para servir como intérprete e assim partem os enviados da Abadia para convencer os galeses que o milagre realizado por Santa Winifred é um sinal de que ela deseja se mudar para Shrewsbury.


Tudo parecia ir às mil maravilhas, com direito a outros tantos sinais e espantos, não fosse um obstinado senhor de terras da paróquia em que a santa estava enterrada se opor à mudança e amanhecer no dia seguinte assassinado.

E aí pelo meio você tem pistas falsas, amores proibidos, políticas hierárquicas da Igreja e por aí afora.

A forma como Ellis Peters constrói tudo isso, costurando fato e ficção em torno de seu herói, é fascinante. Ela trabalha muito bem as questões políticas, deixa implícito a corrente de brigas por poder entre diferentes Ordens Religiosas, a forma como a Igreja estava tão presente na Idade Média, como influenciava a vida nas comunidades. Cadfael, ainda que seja um religioso, tem uma boa dose de ceticismo e não aceita explicações fáceis – mas também não nega a possibilidade de divinos prodígios.

Para minha sorte, o livro era curto, porque eu o peguei para ler de noite e não consegui largá-lo até terminar – já perto de meia-noite, o resto da casa todo dormindo. O mistério em torno do assassinato de Rhisiart foi bem bolado e o final bastante satisfatório em sua conclusão.

Enfim, o ritmo do livro é ótimo, a linguagem simples e tranqüila (não posso deixar de pensar em meu trauma com O Nome da Rosa nesse contexto...). Para quem gosta de História, suspense e narrativas inteligentes, eu definitivamente recomendo.


A Coruja


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