15 de maio de 2012

Um Estudo em Sherlock – Parte III: “Watson, you are a British jury, and I never met a man more eminently fitted to represent one.”

- Estou inclinado a dizer que em todas as histórias que você teve a bondade de escrever das minhas pequenas proezas você tem habitualmente subestimado as suas próprias habilidades. Pode ser que você mesmo não seja luminoso, mas você é um condutor da luz. Algumas pessoas, sem possuir gênio, têm um poder notável de estimulá-lo. Confesso, meu caro amigo, que lhe devo muito.

- O Cão dos Baskervilles -
John H. Watson era filho caçula de uma família de algumas posses. Seu irmão mais velho morreu em 1887 ou 1888, em conseqüência do alcoolismo – e a essa altura, a única herança aparente era um relógio. Foi casado talvez duas ou três vezes, a levar em conta suas próprias crônicas, embora a única esposa de que saibamos o nome seja Mary Morstan, que conheceu durante os acontecimentos de O Signo dos Quatro. Viajou por pelo menos três continentes (Europa, claro, na Ásia, a Índia, onde serviu, e Oceania, uma vez que fala em Ballarat, Austrália, também em O Signo dos Quatro).

Foi um esportista, tendo jogado rugby na juventude. Excelente atirador. Um tanto fraco para apostas – segundo suas próprias palavras, metade de sua pensão por ferimentos de guerra vai para as corridas de cavalo – e talvez por isso seu talão de cheques viva trancado no cofre de outra pessoa.

Formou-se em medicina na Universidade de Londres em 1878, quando então partiu para Netley a fim de fazer o curso para cirurgião do exército. Em algum ponto antes disso, trabalhou no Hospital St. Bartholomew, onde conheceu Stamford, que foi seu cirurgião-assistente. Foi designado para o Quinto Regimento de Northumberland e participou da batalha de Maiwand, em junho de 1880, durante a segunda guerra afegã, quando foi ferido no ombro (há menções a um ferimento na perna e embora muitos considerem isso uma das muitas pequenas contradições em que o autor cai em suas histórias, já vi teóricos holmesianos cogitando que o ferimento na perna teria ocorrido numa ocasião posterior, provavelmente num dos casos de Holmes que não foram compilados - o que até faz algum sentido...).

Transferido para o hospital de base em Peshawar, foi acometido por tifo. Passou meses entre a vida e a morte e, por fim, foi despachado de volta para a Inglaterra, onde um belo dia reencontrou Stamford... que, por sua vez, apresentou-o a Sherlock Holmes... e mudou toda a sua vida.

Em termos de biografia, isso é tudo. Essas são todas as informações que Watson deixa escapar sobre si mesmo em mais de sessenta histórias escritas. Considerando o quanto podemos reclamar da falta de informações acerca de Sherlock Holmes, ele e seu amigo Watson são bem um digno par, porque nenhum dos dois revela muito sobre si mesmo e tudo o que podemos fazer aí é... deduzir.

Na verdade, boa parte do material que temos para deduzir qualquer coisa mais que haja para saber sobre esses dois, versa sobre o relacionamento de Holmes e Watson... e reservei um inteiro capítulo dessa quase monografia só para isso, então, por hora, não nos alonguemos muito neste ponto.

Quando escrevi a introdução desse especial, observei que, tendo começado a ler as histórias de Sherlock Holmes com um determinado estereótipo na cabeça – para ser mais exata, o Watson de Nigel Bruce, introduzido n'O Cão dos Baskervilles de 1939 – peguei birra da subserviência do doutor, da forma como ele permitia que Sherlock o tratasse.

Ao fazer, no começo do ano, minha leitura e releitura dos contos e romances de Doyle – muitos dos quais descobri que ainda não conhecia – e tendo afastado a imagem cômica de Bruce (acompanhada de Morell num filme de 59 que me deixou tontinha quando descobri que sir Henry era Christopher Lee; e de Blakely, no ridículo The Private Life of Sherlock Holmes, de 1970, onde Lee também participa, dessa feita como Mycroft...) em favor dos mais ativos e em forma, Jude Law e Martin Freeman – cheguei à conclusão que Watson (como o próprio Holmes) é bem mais do que parece à primeira leitura.



O primeiro ponto a se observar acerca do Doutor John Watson é que é ele quem escreve as histórias – ele é quem decide o que narrar e onde se focar, e esse foco fica muito pouco sobre ele mesmo.

Há um poder extraordinário em ser o narrador: Watson é quem edita, quem escolhe quais histórias vão a público, o que revelar e como fazê-lo. E ele faz isso em seu próprio estilo, sem se importar com as (inúmeras) críticas que Holmes lhe faz.

Ele está sempre indicando aquilo que nós, leitores, não sabemos, através daquilo que ele não sabe – a constante exaltação dos dotes intelectuais de Holmes em detrimento de si mesmo pode perfeitamente ser vista como uma estratégia para crescer o suspense; uma escolha consciente de (um bom) escritor.

A verdadeira genialidade de Watson, contudo, é na construção dos diálogos. Ele não narra, simplesmente, o que está acontecendo, mas permite que cada personagem conte sua própria história e dá a cada um deles uma voz muito distinta. E é extraordinariamente generoso nisso, passando-nos emoção e personalidade – o que não apenas atrai a empatia do leitor como faz dele um legítimo tradutor de ‘sherlockês’ (o único no mundo!).

Filtrado por seu biógrafo, Holmes se torna indubitavelmente mais humano aos nossos olhos.

Mas se você ainda tem alguma dúvida ou argumento acerca da inteligência de Watson, lembre-se apenas disso: Holmes não apenas o tolera como deseja sua companhia e é realmente difícil acreditar que o detetive pudesse desejar a companhia de um tolo quando ele não dá a menor importância para o resto do mundo.

Claro que todos esses argumentos podem ser revertidos direto para o autor. Deixando de lado “O Grande Jogo” em que os fãs vivem absortos, montando quebra-cabeças em que Holmes e Watson foram reais e não apenas um produto da imaginação, todas essas qualidades que colocamos para o bom doutor são aplicáveis a Sir Arthur Conan Doyle.
Perguntam-me muitas vezes se eu próprio possuo as qualidades que descrevo ou se sou apenas o Watson que pareço ser. Naturalmente tenho plena consciência de que uma coisa é lidar com um problema prático e outra poder resolvê-lo nas condições que se estabeleceu. Ao mesmo tempo, um homem não pode engendrar um personagem na mente e torná-lo real, a não ser que potencialmente possua aquele personagem dentro dele – o que é uma admissão perigosa para alguém que criou tantos vilões quanto eu.

- A Verdade Sobre Sherlock Holmes -
Há uma série da BBC lançada entre 2000 e 2001 chamada Murder Rooms, que traz Doyle, ainda como estudante, resolvendo crimes ao lado de seu professor, Joseph Bell. O roteiro exagera um pouco para dar a entender que os casos narrados mais tarde por ele seriam inspirados nessas ‘histórias reais’, mas uma cena real da biografia de Doyle me chamou a atenção: quando Bell deduz sobre o pai de aluno – alcoólatra e posteriormente, epiléptico – da mesma forma que Holmes o faz com o irmão de Watson: inferindo dos detalhes de um relógio tudo o que havia para saber.

Problemas de família não são as únicas coincidências das vidas de Watson e Doyle. Doyle se formou em medicina em 1881. Um pouco antes, em 1880, ele viajou na tripulação do baleeiro Hope, como cirurgião – um período em que passou por não poucos perigos. Por esta época, ele já escrevia alguns contos – sua primeira história publicada foi O Mistério de Sasassa Valley, em 1879 (é uma narrativa bem curiosa) – mas a idéia de sobreviver como escritor não estava ainda em seus planos.

Em 1885, casou-se com Louise Hawkins – que conheceu por causa de um paciente. Jack Hawkins tinha meningite e estava prestes a ser, junto com a família, expulso da casa em que viviam, quando Doyle decidiu que o rapaz devia se mudar para a casa dele, onde poderia ser tratado de perto e a família poderia continuar unida.

Jack não sobreviveu muito, mas a tragédia serviu para unir sua irmã, Louise, e o jovem Arthur. E tudo estaria muito bem se em 1893 – o mesmo ano em que era publicado O Problema Final - ela não fosse diagnosticada com tuberculose. Os médicos deram apenas alguns meses de vida para ela e Doyle então decidiu se mudar para a Suíça, onde o clima seria mais benéfico para a saúde da esposa.

Louise melhorou, eles retornaram para a Inglaterra... e em 1897, ele conheceu Jean Leckie e se apaixonou perdidamente – e foi correspondido. Só que havia Louise a se considerar e magoar a esposa estava fora de cogitação (não apenas por causa da doença, mas por seu próprio código de honra) – ele amava Jean passionalmente, mas respeitava e sentia verdadeiro afeto por Louise.

Eles não podiam ficar juntos, mas também não suportavam a idéia de ficarem separados. Doyle resolveu a situação – se é que se pode chamar de resolução – fazendo uma espécie de acordo com Jean: o amor deles seria puramente platônico, uma relação que era ao mesmo tempo aberta e secreta, uma vez que ele a apresentou a toda família e sua mãe sabia de toda a situação; mas a esse tempo, eles se relacionavam apenas como amigos.

Louise morreu em 1906, sem saber que Doyle amava outra mulher. Logo depois disso, ele passou por um período de depressão (e possivelmente culpa), do qual só se reergueu após trabalhar para limpar o nome de George Edajli – meses de investigação aos quais se dedicou porque ao conhecer o homem, intuiu que ele era inocente.

A história da vida de Doyle é um material rico para romances e, lendo nas entrelinhas, ele tanto pende para Holmes quanto para Watson. Mas é na personalidade do biógrafo que se adivinha muito mais dele. Pela história de vida de Doyle, é bastante óbvio a força de seu caráter, de suas crenças, sua firme determinação em cuidar e ajudar o próximo – todas características que podemos sentir em Watson.


Creio que em qualquer lista de “melhores amigos literários”, John Watson estaria em primeiro lugar – ou seria hors concours, realmente. Além de ser de uma lealdade absoluta, disposto a ajudar em toda ocasião que o amigo precise dele, Watson tem treinamento militar – o que faz dele uma vantagem em qualquer situação de risco (e risco é algo que vem no pacote quando você divide um apartamento com Sherlock Holmes) – e é médico, o que significa ter à mão os devidos cuidados após quaisquer acidentes advindos dos interesses do detetive. Para não contar as diversas ocasiões em que ele realmente salva o dia e a vida de Holmes.

Quer um exemplo? Veja o que Watson é capaz de fazer em O Pé do Diabo quando seu melhor amigo está em perigo...

Ele também está sempre pronto a servir de platéia para o Holmes. Fosse criado um fã-clube do detetive no mundo da história, Watson certamente seria presidente e fã número 1. Mas é importante notar que ainda que não se canse de elogiar os extraordinários poderes de dedução de companheiro, Watson também é capaz de enxergar os defeitos dele.

Ele reclama da desorganização (e até tenta convencer Holmes a fazer uma limpeza em O Ritual Musgrave), chama a atenção para quando o comportamento do outro não é completamente aceitável (e fica verdadeiramente exasperado quando Holmes conta que ficou noivo de uma empregada do homem que está investigando, só para ter acesso a casa) e combate incansavelmente o vício em cocaína de Holmes.

Aliás, esse é um ponto interessante em Watson. Até 1920, a cocaína era legalizada na Inglaterra – na verdade, ela era até mesmo receitada para os mais diversos tipos de doenças, especialmente no tratamento do vício em morfina (provavelmente, Holmes começou a usar cocaína por causa de seu vício inicial em morfina, que talvez tomasse para se acalmar ou ser capaz de dormir...). Estudos sobre a potencialidade destrutiva da droga e seu vício apenas engatinhavam. O fato de Watson militar contra seu uso por Holmes demonstra não apenas que ele estava a par dos mais recentes estudos sobre o assunto, mas também lembra a sua perda do irmão para o álcool.

Watson pode até dirimir sua importância na vida de Holmes – como de fato o faz até um tanto magoado em O Homem que Andava de Rastros -, afirmando que ele era um hábito “como o violino, o tabaco forte, o velho cachimbo preto, os livros de índice, e outras tantas coisas talvez menos desculpáveis”. Mas a verdade é que Holmes não funcionaria sem seu Boswell... Voltando ao tema das drogas, basta lembrar que Holmes deixou a cocaína por causa da insistência do amigo, não porque achava que tal vício fosse de alguma forma prejudicial. O caráter de Watson é uma influência constante sobre ele – lendo em ordem cronológica os contos, somos bem capazes de perceber a atitude de Holmes mudando, a forma como ele vai de apenas observar crimes com uma empolgação mal-contida até começar a se importar realmente com justiça e não apenas com distrações.

Claro, tudo está em subtexto e é preciso prestar atenção para ver essas coisas – detalhes muito sutis, sem dúvida. Mas está lá. Watson não é apenas um hábito. Ele é parte integral daquilo que faz de Sherlock Holmes um personagem tão fantástico – uma constante, uma bússola, uma âncora; tudo isso Watson representa na vida do amigo e é sempre assim que ele é lembrado pelos leitores: talvez não luminoso por si mesmo, mas certamente, um condutor de luz.

[Dé: Droga, uma parte inteira e eu não pensei em nada pra comentar!

Lu: Maravilha!]



(Continua em “My life is spent in one long effort to escape from the commonplaces of existence.”)


A Coruja


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6 comentários:

  1. Brilhante texto, Lu. Fiquei aqui me deliciando com ele. Acho que se realmente nosso Shoujocast sobre Holmes sair, eu vou ser mais plateia do que parte do show. :D

    Aguardo ansiosamente o quarto texto.

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    1. Fico extremamente feliz que esteja gostando, Valéria! Essa terceira parte, com a análise do Watson, foi uma das que mais me esforcei, porque acho que muita gente deixa de lado e subestima o bom doutor - o que é um absurdo, porque ele merece todos os créditos.

      Quinta temos a sociedade em que Holmes transita - vilões, clientes, associados, detetives. Estou ansiosíssima para ver o que o pessoal acha da análise da Adler.

      E estou torcendo para que saia o shoujocast; acho que vai ser MUITO divertido!

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  2. Esse texto está divino! Quando eu li pela primeira vez um livro da série, sempre gostei muito do Watson, mas ele não passava muito de companheiro de quarto e biógrafo do Holmes. Depois que eu assisti ao seriado da BBC foi que eu passei a prestar atenção ao personagem mais dignamente, e pode ter certeza que esse post só melhorou ainda mais essa visão!
    Abraços o/

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    1. Que bom que gostou, Lizzie! Pois é, acho que um dos maiores trunfos da série foi o espaço que deram ao Watson. Acho que ele é um personagem muito mal aproveitado na maior parte das adaptações que encontrei... o que é um absurdo! Watson é um homem inteligente... questão é que perto do Sherlock, todo mundo fica com cara de tolo, né?

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  3. Watson é inteligente mas não é uma enciclopédia... ele não tem a capacidade de Holmes de lembrar detalhes pequenos. Ele era doutor, então detalhes que ele lembra sáo relacionados à medicina, lembranças e conhecimentos gerais (leia-se, senso comum... XP). huahuahua!

    Lulu, muito bom. Eu acho fantástica como vc é capaz de ler as coisas além do que as palavras estão expressamente dizendo... :)

    E sim, Watson merece muita atenção... especialmente Jude Law. <3

    bjao!

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    1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...

      Bem, eu nunca quis dizer que o Watson era uma enciclopédia, Ísis. É porque você só conhece as adaptações modernas de Sherlock; mas em filmes mais antigos, eles colocam Watson como um idiota que só está lá para bater palmas. E eu detesto isso profundamente; ele é tanto mais além de um mero espectador...

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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