8 de maio de 2012

Um Estudo em Sherlock – Parte I: “I have my eye on a suite in Baker Street...”

- Este meu processo - principiei - parte da suposição de que, uma vez eliminado tudo o que é impossível, o restante, por pouco provável que pareça, deve ser a verdade. Também pode ocorrer que várias explicações fiquem de pé, e nesse caso tenta-se uma experiência, e logo outra, até que uma delas tenha uma base convincente.

- A Aventura do Soldado Lívido -
A primeira vez que li alguma das aventuras de Sherlock Holmes e seu fiel Doutor Watson, tinha uns treze para quatorze anos. Um Estudo em Vermelho foi apontado como paradidático para a escola – e eu, óbvio, devorei-o tão logo minha mãe terminou de providenciar o material escolar, antes mesmo do início do período letivo.

Claro que já conhecia o detetive de nome. Sherlock Holmes transcendeu há muito as páginas escritas por Sir Arthur Conan Doyle e sua imagem icônica foi completamente absorvida pelo imaginário coletivo.

Talvez por isso mesmo, as coisas não tenham dado tão certo em nosso primeiro encontro.

Enquanto lia Um Estudo em Vermelho a imagem que eu tinha na cabeça era a versão Sherlock-Capa-Chapéu-Cachimbo de Basil Rathbone e Watson-Gordo-Tolo-Alívio-Cômico de Nigel Bruce. Com essas imagens na cabeça, ainda que as deduções de Holmes me enchessem de admiração, eu não conseguia engolir muito bem a relação dos dois ‘amigos’.


Com essa imagem na cabeça, era impossível não enxergar condescendência e desprezo por trás de muitas atitudes do detetive. Assim é que depois de uns dois ou três livros do Doyle, abandonei Holmes em favor de Poirot, que me parecia muito mais afável. E por anos e anos as coisas ficaram nesse ponto.

Meus sentimentos sobre o tema podem ser encontrados na resenha que fiz de O Cão dos Baskervilles quando de sua leitura no Clube do Livro – mas confesso que ali eu já começava a analisar as coisas de forma diferente e ver por trás das aparências imediatas.

Não se surpreendam com tais afirmações vindas de alguém que passou os últimos meses declarando aos quatro ventos seu amor pelo detetive, obcecada em devorar tudo o que encontrava com o personagem – das aventuras originais, a pastiches, quadrinhos, filmes, séries, desenhos, até ensaios e monografias. Mais de dez anos me separam daquela primeira leitura afinal e gosto de pensar que aprendi uma coisa ou duas nesse meio tempo – inclusive a interpretar coisas que me parecem óbvias hoje, mas que eu não conseguiria enxergar nem com uma lupa àquela época, especialmente influenciada pela imagística que tinha na cabeça então.

Meu problema com Sherlock Holmes nunca foi Holmes em si, mas, como já disse, sua relação com Watson. Eu detestava o tom condescendente com que ele tratava o bom doutor e detestava ainda mais a maneira como Watson simplesmente engolia tudo e se fazia de capacho para o amigo limpar os pés.

Também havia o detalhe de que só lendo uns três livros das mais de sessenta histórias que Doyle escreveu, eu não tinha todos os fatos. E é um erro teorizar sem fatos.

A coisa começou a mudar de verdade quando assisti o filme de 2009, com Robert Downey Jr. e Jude Law nos papéis da dupla. Assisti os trailers com certa estranheza, tentando me lembrar se Holmes era tão ‘ativo’ quanto aparecia na tela. Curiosa, reli Um Estudo em Vermelho e fui assistir o filme...


Minha interpretação começou a mudar nesse dia (e também dá para sentir a empolgação na resenha que fiz à ocasião).

Não é que o filme fosse particularmente genial ou fantástico. Eu gostei dele, achei divertido... e, pouco a pouco, as visões estereotipadas dos personagens que eu tinha na cabeça começaram a mudar. Tentei me lembrar de onde fora que eu tirara a idéia de que Watson era apenas alívio cômico e saco de pancadas e cheguei à conclusão que isto não estava no cânone ao final das contas.

Comecei a perceber nuances no doutor, qualidades que iam além da lealdade cega e admiração incondicional. Perto de Holmes, Watson podia parecer ordinário, mas quando você começa a se concentrar nele, se dá conta que ele é mais inteligente, firme e controlado do que parece à primeira vista.

Eu ainda não gostava muito do jeito arrogante com que Holmes tratava o resto do mundo... Mas aí saiu a série Sherlock da BBC... e o mundo virou de ponta cabeça.


A dinâmica apresentada ali entre Sherlock e John era... brilhante, espetacular, fantástica. Era a primeira vez que eu via os personagens serem interpretados por atores jovens – o que faz sentido, porque se você for fazer as contas, Sherlock devia ter uns vinte e cinco para baixo e John, até no máximo uns trinta quando eles se conheceram em St. Bartholomew’s Hospital – e havia qualquer coisa de tão viva, tão empolgante e tão verdadeira na amizade que repentinamente junta esses dois homens; há respeito e admiração de ambas as partes, e eles riem juntos e caçam criminosos juntos e cuidam um do outro...

Como é que eu tinha perdido tudo aquilo de vista quando li os livros? Sim, porque embora estas sejam adaptações, está tudo lá, na obra de Doyle, e era óbvio que eu tinha errado em algum dobra temporal ou coisa do tipo para não tê-lo percebido.

Era hora de fazer o dever de casa. Desenterrei tudo o que eu tinha das aventuras aqui em casa, providenciei o resto da bibliografia que não possuía – e mais uma série de títulos relacionados, incluindo aí até a biografia não-autorizada do detetive (porque tem muita gente doida nesse mundo que se dedica a esse tipo de passatempo). Andei para cima e para baixo com uma tabela das datas de publicação de cada uma das histórias, enquanto fazia mil e uma anotações, arrancava os cabelos com inconsistências de roteiro e contradições de datas e sorria feliz toda vez que encontrava uma informação nova, um detalhe que me tinha passado despercebido antes, mais uma peça do meu grande quebra-cabeças.

[Dé: Me chamem de sádico ou cretino, mas eu ria muito da cara de desespero que a Lu fazia...

Lu: O Dé decidiu que agora vai participar do desenvolvimento dos especiais no mesmo sentido de comentários de áudio nos extras dos DVDs Vocês podem ignorá-lo, se quiserem. Eu estou ignorando...]


Mais importante, prestei atenção nos detalhes, sem dar um tom irônico toda vez que Holmes abria a boca, tentando entender o que estava acontecendo, o que estava nas entrelinhas das interações entre os dois amigos, afastando as noções pré-concebidas que tinha na minha cabeça de uma leitura feita mais de uma década atrás.

Na enorme trívia de conhecimentos bizarros que adquiri nesse estudo, há curiosidades como o fato de que no rascunho original de Um Estudo em Vermelho, os nomes do detetive e seu biógrafo serem, respectivamente, Sherringford Holmes e Ormond Sacker; Thadeus Sholto de O Signo dos Quatro ser descrito quase que exatamente à imagem e semelhança de Oscar Wilde – para não observar a ‘coincidência’ do nome do pai de Lorde Alfred Douglas ser John Sholto Douglas – ou que o próprio Doyle mais de uma vez se meteu a detetive, em geral, com bons resultados.

Ao longo de quatro, quase cinco meses, minha mente residiu quase inteiramente na era vitoriana. Entre livros, filmes, solos de violino e rascunhos, eu agora observava onde antes apenas tinha passado por cima. De repente, meu mundo se transformara numa cidade nebulosa, iluminada com lampiões de gás, cabriolés elegantes passando pelas ruas cheias de mentes criminosas prontas a dar um golpe fatal – centro do mundo, centro do Império – que começava e terminava em 221B Baker Street.

Estão prontos para a aventura? Venha se inconveniente. Se inconveniente... venha assim mesmo.


(Continua em “It is my business to know what other people don’t know.”)


A Coruja


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17 comentários:

  1. Respostas
    1. *esfregando as mãos enquanto faz planos*

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  2. O seu texto ficou fantástico! Estou ansiosíssima para começar a aventura. Eu estou começando a entrar numa fase BEM sherlockiana.
    Só um comentário - ao contrário de você, o que me encantou em Sherlock foi justamente o jeito meio esnobe com que ele tratava os outros, achava engraçado como ele prezava tanto a si mesmo. Acho o final do conto The six Napoleons bem legal.
    Até a próxima parte! Beijos,
    Lizzie.

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    1. Que bom que gostou, Lizzie! E vem muito mais informação por aí ;)

      Eu gosto do Sherlock, não tenho nada contra o jeito meio esnobe dele... o que às vezes me irritava (não irrita mais agora que enxergo a coisa com outra interpretação) era o jeito com que ele lidava com o John. Porque, sério, John merece medalhas e mais medalhas por conseguir convencer com o detetive XD

      Vim perceber recentemente que Watson era meu personagem favorito da história e por isso meço todas as adaptações pela forma como ele é retratado... huahuahua...

      Também gosto muito dos seis napoleões. Está na minha lista dos dez melhores contos ;)

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  3. Luciana, estou encantado com o seu texto e desesperado por ler a continuação! Também adoro Sherlock Holmes! Por ironia do destino, foi justamente um amigo meu médico quem me apresentou ao mais famoso personagem de Conan Doyle! Estava eu estudando algo para a faculdade no intervalo do almoço e percebia a leitura entusiasmada desse meu amigo. Acabei não resistindo e lhe perguntei do que se tratava. Pronto: estava plantada a semente do desejo voraz pela leitura, essa mesma semente que você vive plantando em minha alma ultimamente, Lu! E agora não tem mais jeito: quero mergulhar nessa aventura!
    Michel Sued

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    1. Oi, Michel, bom te ver por aqui! Que bom que gostou dessa primeira parte - ela é só uma apresentação; mas quinta vamos ter a continuação com a análise quase freudiana de Mr. Holmes. Seu amigo tem bom gosto: não há nada melhor que escapar por um tempo para dentro de um livro e as histórias de Doyle são uma excelente via.

      Amanhã teremos mais novidades XD

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  4. Excelente texto! =D

    É bem legal ler o depoimento de outra pessoa igualmente apaixonada por uma coisa. Ao contrário de você, me apaixonei por Sherlock na adolescência, sempre achei que tinha algo mais naquele tom esnobe e superior dele, isso sempre me encantou. E a astucia, a inteligência, não que Poirrot não os tenha, mas eu perdi o interesse quando comecei a resolver os casos antes do final dos livros. Os caminhos do personagem da Agatha sempre me pareceram meio óbvios, coisas que eu pensaria na mesma situação, mas Sherlock, haa ele sempre tinha uma carta na manga, ele era muito bom, era o melhor, e sabia perfeitamente disso!
    Confesso que, após alguns anos, me afastei um pouco da 221B Baker Street e parti para outros mundos. Quando o filme de 2009 foi anunciado não coube em mim a alegria,sim, seria uma adaptação, mas depois de anos eu veria um Sherlock de carne e osso. Eu eu nunca tive problemas com adaptações, sempre foi aberta a novas possibilidades (acho purismo chato!) e curti essa coisa toda cheia de explosões e "aventura",gotei até mesmo, da visão de Jô Soares do nosso detetive favorito, me divirto até hoje lendo O Xangô de Backer Street (Muito criticado por muito fã por ai).
    Enfim, acho que deu para notar minha ligação com o personagem e toda a sua mitologia. Fico por aqui pq já escrevi demais, mas aguardo ansiosa sua nova atualização. =)

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    1. Olá, Dana! Concordo com você, não gosto de purismo, acredito que é impossível transpor para a telinha palavra por palavra de um texto e, melhor que isso, ver essas adaptações, ver a interpretação que outras pessoas dão desses textos ajudam a nos fazer enxergar novas facetas - como aconteceu comigo mesma...

      Também adoro O Xangô! Deu até vontade de reler agora que você me lembrou dele!

      Amanhã tem novidades, mas a próxima parte do especial mesmo vem na quinta ;)

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  5. Ai como tá bom isso aqui, bom ler outros relatos de fãs como a gente.

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  6. Meu Deus... Magestade, como você consegue fazer essas "quase monografias" sem pirar?

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    1. Dani, eu confesso que não faço a menor idéia...

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  7. Lulu, eu concordo com o Dé. Foi MUITO engraçado ver sua cara enqto lia e se desesperava com as inconsistências... pq vc não ocnseguia decidir se ficava feliz por tê-las notado ou se ficava frustrada com Doyle. O resultado era uma expressão impagável. XP

    Mas, sim, tb concordo com a Dani. Admiro muito vc por conseguir organizar seu tempo pra fazer esses ensaios enormes (e, óbvio, não é só fazê-los, como tb preparar e estudar para isso)... e não ficar doida (se bem que tenho minhas dúvidad qto a esse ponto...)

    Ficou bem legal essa introdução, aos poucos vou lendo mais. E adorei saber que vc já foi normal um dia (qdo leu UEEV e não se deu conta das coisas)... HUAHUAHUAHUA!

    BJAO!

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    1. Vocês adoram me ver surtando, né? XD

      Obrigada pela companhia Ísis (que chique, tenho leitores no Japão! Huahuahuahua...).

      E quem disse que eu não sou normal? ;)

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  8. Consegui ler a primeira parte, aleluia!
    Eu teria várias observações a fazer sobre o Sherlock - começando pelo fato de eu só me interessar por ele a partir do Sherlock do Robert Downey Jr, e antes disso gostar única e exclusivamente do Poirot - mas eu precisaria ler TODOS os livros que eu comprei e ainda não consegui ler. De qualquer forma, eu ADOREI esse começo, e assim que eu conseguir mais uma folguinha eu continuo lendo a série.
    E eu sou sua fã, viu? De verdade! :D

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    1. Que bom que gostou, Elise!

      Olha, eu também gosto do Poirot... em julho vai rolar Clube do Livro aqui no Recife sobre "Assassinato no Expresso do Oriente" e estou me coçando para esse debate.

      Mas Holmes tem seus méritos, coisas que você só percebe quando enxerga o conjunto da obra, quando você acompanha o crescimento dele, sua aproximação do Watson... A amizade dos dois é uma das amizades mais bonitas da literatura.

      Espero que consiga tempo para ler as partes seguintes! ;)

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  9. Parabéns, um excelente texto.

    estou com uma vontade tremenda de comprar os livros e viajar nessas histórias incríveis.

    Meus únicos contatos por enquanto foram uma edição de bolso e a série da bbc , mas eu quero me aprofundar mais entende... Qual a edição que vc usa? Alguma sugestão??

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    1. Obrigada, Luan. Olha, para escrever esse especial, eu reli todas as histórias no original, em inglês e também na edição de bolso da Zahar, que são as que tenho em casa. Mas se você quer se aprofundar, eu recomendaria as edições comentadas da própria Zahar - porque elas situam o leitor em eventos históricos, nas questões do contexto da época, etc.

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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