25 de maio de 2012

Projeto Pratchett: Night Watch

‘That's a nice song,' said young Sam, and Vimes remembered that he was hearing it for the first time.

’It's an old soldiers' song,' he said.

’Really, sarge? But it's about angels.'

Yes, thought Vimes, and it's amazing what bits those angels cause to rise up as the song progresses. It's a real soldiers' song: sentimental, with dirty bits.

’As I recall, they used to sing it after battles,’ he said. 'I've seen old men cry when they sing it,’ he added.

’Why? It sounds cheerful.'

They were remembering who they were not singing it with, thought Vimes. You'll learn. I know you will.


Terry Pratchett – Night Watch
Estive esperando um longo tempo para ler esse livro e escrever essa resenha – mas era necessário esperar chegar a data certa para fazê-lo. Assim é que organizei meu cronograma desde ano passado para que este volume caísse em maio e eu pudesse comentá-lo exatamente na data de aniversário da Revolução Gloriosa.

Eis, finalmente, que estamos aqui.

Os livros da série Discworld que se concentram na Guarda são os meus favoritos (Small Gods é uma exceção à regra). Toda vez que avanço mais um volume deles, troco o primeiro lugar da minha lista. Mas, francamente, não acho que a coisa possa ficar muito melhor que Night Watch.

A primeira coisa que você precisa saber sobre esse título é que ele não é um livro engraçado. Ele tem boas tiradas de humor negro e politicamente incorreto. Mas não é engraçado. Ou sutil.

Ao começo da história, Vimes, comandante da Guarda de Ankh-Morpork, está perseguindo alucinadamente um assassino psicopata que tem um especial prazer em matar policiais. Os dois acabam por se enfrentar no teto de vidro da Biblioteca, na Universidade Invisível, em meio a uma tempestade que não tem nada de natural.

Raios e trovões. O teto se parte. Vimes e Carcer despencam de uma altura que deveria ser mortal… para então acordar trinta anos no passado, às vésperas de um banho de sangue que marcou a história particularmente sangrenta da cidade – a Revolução Gloriosa, da qual Vimes participou quando era apenas um cadete recém-chegado à Guarda... quando perdeu a inocência, ingenuidade e além de fiéis companheiros, o homem que lhe ensinou tudo o que fez dele quem ele era agora.

O Patrício da época, paranóico com a certeza de um golpe para tirá-lo do poder (que está realmente correndo nos bastidores, mas claro que ele não se deu nem conta de quem é que são os verdadeiros conspiradores...) instituiu um verdadeiro reino de terror na cidade, com censura, toque de recolher e uma polícia secreta com livre mando para prender, torturar e sumir com as pessoas nos porões de sua base, cumulado com impostos altíssimos, extorsões e todo tipo de abuso.

Night Watch ecoa muito de perto o caos social do período pós-napoleônico na França, das revoltas e barricadas em Paris em 1832 – o mesmo motim que serve como pano de fundo para Os Miseráveis, de Victor Hugo.

Isso, claro, não é uma coincidência.

Vimes é Javert, o policial sempre perseguindo Valjean. Só que os temas e princípios de Vimes são muito diferentes de Javert – a começar pelo fato de que o homem que ele persegue, Carcer, é um psicopata completo, do tipo que arranca seus intestinos com uma faca enquanto assovia.

Onde Javert conceitua a justiça como punição dos culpados, Vimes a entende como a proteção dos inocentes – e é exatamente isso que ele faz nesse livro.

Claro que nada é tão simples... ou maniqueísta. Não seria Pratchett se fosse, não é verdade?

A chegada de Vimes e Carcer ao passado cria uma espécie de aberração temporal – algo que pode alterar o inteiro futuro deles. Para que isso não ocorra, ambos precisam assumir certos personagens e, para Vimes especialmente, tal mascarada é dolorosa: ele sabe o que aconteceu e sabe que se quiser, pode salvar aqueles que se perderam na Revolução; poder reescrever a história para que ela não volte a terminar em tragédia.

Mas isso significa abrir mão de seu futuro – e de sua família. Em uma das cenas que mais me marcou no livro, Vimes corre para onde será sua casa, desesperado para ter certeza de que está tudo bem com a esposa, Sybil (que além de tudo, está grávida), para encontrá-la como uma adolescente que, obviamente, nunca ouviu falar dele na vida.

Ele se vê tendo de decidir entre aquilo que é certo e o que sabe tem de fazer para preservar seu futuro – sem ter certeza absoluta de que esse futuro ainda lhe é possível. Tudo isso enquanto a cidade se prepara para queimar.

Em 2007, Pratchett foi diagnosticado com Alzheimer. Desde então, fãs do autor usam, no dia 25 de maio, ramos de lavanda – usada como símbolo pelos revolucionários de Night Watch quando da traição do Patrício e, posteriormente, para relembrar e homenagear aqueles que caíram lutando – e fazem doações para um fundo de pesquisas da doença.


Até onde eu saiba, não existe nenhuma iniciativa parecida aqui no Brasil. Eu gostaria de fazer uma doação, mas não descobri exatamente onde eu vou para isso. Por hora, apenas uso a lavanda – ainda que ninguém com quem eu cruze no dia-a-dia vá entender o significado do ato.

Enquanto isso, gostaria de convidar os caros leitores do Coruja a irem no site da Conrad pedir o relançamento dos livros do Pratchett aqui no Brasil. Algumas pessoas comentaram comigo que morrem de vontade de ler o autor depois de ver as resenhas aqui, mas que é difícil encontrar disponíveis os títulos já traduzidos. Em especial, a Mariana, que me mandou um email sobre o assunto, pedindo para divulgar a idéia de encher o saco da editora para ver se eles se tocam do público leitor que estão desprezando.

Coincidentemente, quando ela me escreveu, eu estava começando a escrever essa resenha - e que data melhor para iniciar uma campanha como essa que não o aniversário da Revolução Gloriosa?

Então, é isso. Lembrem da Gloriosa República de Treacle Mine Road. Verdade. Justiça. Liberdade. Amor com Preços Razoáveis. E um ovo cozido. Use a lavanda.
The occupants of these graves had died for something. In the sunset glow, in the rising of the moon, in the taste of the cigar, in the warmth that comes with sheer exhaustion, Vimes saw it.

History finds a way. The nature of events changed, but the nature of the dead had not. It had been a mean, shameful little fight that ended them, a flyspeck footnote of history, but they hadn't been mean or shameful men. They hadn't run, and they could have run with honour. They'd stayed, and he wondered if the path seemed as clear to them then as it did to him now. They'd stayed not because they wanted to be heroes, but because they chose to think of it as their job, and it was in front of them...

Em memória de John Keel, Billy Wiglet, Horace Nancyball, Dai Dickens, Cecil 'Snouty' Clapman, Ned Coates e (tecnicamente) Reg Shoe.


A Coruja


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6 comentários:

  1. UAU, fiquei até emocionada. Eu lembrava de alguma coisas ano passado de algo sobre o tema mas tanta cosias na cabeça que não registrei no HD, então quando você começou a postar no Face sai pra procurar e li um monte de coisa. Por isso aderi e coloquei a minha toalha e lilás porque vamos fazer todas as homenagens possíveis juntas. E acho o fim os livros de Pratchett não serem encontrados em português, mas infelizmente a procura não é grande porque não são tão divulgados, blogs literários como o seu são raros, como o seu.

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    1. Mas é emocionante mesmo... Pratchett é... tudo de bom. Ele te mata de rir, ele te faz refletir, ele te emociona, ele te questiona... E esse livro... esse livro em especial me deixou arrepiada. Inspirada. Maravilhada. Ele conseguiu se superar em Night Watch - e quando você pensa que ele continua escrevendo, mesmo com todas as dificuldades criadas pela doença - nem que seja ditando para seu editor, já que não consegue mais fazê-lo sozinho - e consegue ser pra cima, e trata super bem os fãs e continua criando histórias maravilhosas que não apenas são cheias de humor, mas que também te fazem pensar nas coisas que realmente importam... cara, o Pratchett é um exemplo. Meu ídolo. Amo o cara de chapéu. Ele merece todas as honras, todos os elogios, todas as homenagens. Ele merece ser conhecido. E eu agora sei que não estou sozinha nessa campanha maluca de torná-lo mais próximo do público brasileiro. Tem um monte de gente que lê o blog que fala e reclama de não conseguir achar os livros - e eu fico bastante satisfeita de saber disso... de saber que estou influenciando essas pessoas e que elas estão indo atrás. Cara, como isso me deixa feliz.

      Tô emocionada. Deixa eu cobrir a cabeça com a toalha...

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  2. Carambolas atômicas tenho vontade de chorar, gritar, espernear, sei lá mais o que cada vez que leio tuas resenhas sobre o Pratchett... nem é possível o tanto que eu admiro esse homem!!!
    Chega ser um sacrilégio que mais pessoas não conheçam ele... essa campanha tem meu total apoio!!
    Use a lavanda!

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    1. E é por essas e outras que persisto em minha cruzada de ler e resenhar toda a série discworld... XD

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  3. Gente, existe uma comunidade de fãs brasileiros de Pratchett? Não consigo achar nenhuma, e isso me entristece. Sinceramente, o melhor que consegui achar foi essa página, ou seja, uma linda resenha com comentários que transparecem a mesma paixão pelos livros e pelo autor que eu sinto. Pena que ao todo aqui só temos quatro fãs, contando comigo.
    Ainda assim, já é alguma coisa que exista uma campanha para tornar os livros mais conhecidos no Brasil. Acontece que se a Conrad não ajudar, ficamos limitados a emprestar nossos exemplares e recomendar a série. E quem não lê em inglês? Tem o quê, dez livros traduzidos? De quarenta? Mesmo em inglês, aquelas edições de bolso, eu custo para encontrar nas livrarias! Posso pedir e esperar, mas não é isso o que eu quero. Eu quero pilhas de Pratchett bem à vista, disponíveis para qualquer um que desconheça a série, ou simplesmente nunca tenha começado. Eu quero o reconhecimento que essa obra merece e quero que mais brasileiros saibam que ela existe.
    Então, é o seguinte. Se essa comunidade de fãs brasileiros de discworld não existe, vamos criar ela agora. Não de fãs porque achamos a série o máximo (isso também), mas um mutirão Pratchett, seguindo essa campanha. Vamos juntar gente, e vamos fazer coisas.
    Ok, vamos juntar gente, primeiro. Se conseguirmos isso, daí seguimos em frente.
    Não estou dizendo que essas resenhas não fazem muita diferença, de jeito nenhum! Você já sabe como isso tem efeito, é ótimo. Continue, por favor!=)
    Mas, se possível, entrem em contato. Ou respondam dizendo que já existe, sim, uma comunidade de fãs brasileiros, também vou ficar feliz.
    ana.sovat@gmail.com
    Mandem-me cartinhas lilazes.

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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