1 de março de 2012

Para ler: O Jovem Sherlock Holmes - Nuvem da Morte



Um lampejo de cor em meio às árvores chamou sua atenção: manchas vermelhas sobre um fundo branco. Sherlock chegou mais perto, pensando que se tratasse de um cogumelo gigante no chão, mas havia algo no formato daquilo que o incomodava. Parecia…

Uma nuvem de fumaça começou a desprender-se do objeto justamente quando Sherlock o reconheceu: o corpo retorcido de um homem caído no chão. A fumaça dissipou-se, levada pela brisa, mas não havia nenhum sinal de fogo. Por um momento Sherlock pensou que o homem estivesse deitado ali fumando um cachimbo, por algum motivo com o rosto envolto em um lenço branco de estampas vermelhas. Ao aproximar-se, contudo, percebeu que as manchas vermelhas não eram marcas em um cogumelo nem estampas em um lenço branco.


Andrew Lane – O Jovem Sherlock Holmes: Nuvem da Morte

Depois de devorar toda a bibliografia de Mr. Holmes por Conan Doyle e antes de entrar em crise de abstinência, comecei a sair à cata de outros títulos com o detetive e seu fiel Watson. Afinal de contas, Sherlock virou franquia quase que imediatamente após suas primeiras publicações – dezenas ou centenas de autores já o pegaram emprestado para escreverem suas próprias histórias (e, ao contrário do que fãs puristas possam pensar, muitas dessas histórias são excelentes!).

Foi assim que dei de cara com Andrew Lane e seu O Jovem Sherlock Holmes – Nuvem da Morte.

Nesse primeiro título (depois fui descobrir que se tratava de uma série...) nos deparamos com Sherlock aos treze para quatorze anos – extremamente inteligente, um bocado solitário e deslocado e dando os primeiros passos para se tornar quem se tornou mais tarde.

A princípio, embora seja naturalmente curioso e observador, Sherlock não demonstra lá grande interesse em se preparar como um futuro detetive. Na verdade, ele parece mais particular à arte que à ciência – e em passar o mais longe possível do radar da Sra. Eglantine, governanta da casa dos tios, onde foi ‘condenado’ a passar as férias uma vez que o pai partiu para a Índia em missão oficial e o irmão é um agente muito ocupado do governo em Londres.

Mesmo quando conhece um garoto da cidade próxima, Matty, que o leva para ver a casa onde um homem recentemente morreu em circunstâncias misteriosas (testemunhado por Matty gritos seguidos de uma estranha nuvem negra deixando a casa do falecido), o jovem Holmes não dá muita particular atenção ao mistério que acaba de surgir sob seu nariz.

Ao menos, não até que ele próprio dê de cara com um cadáver coberto de pústulas cuja morte se deu em circunstâncias muito parecidas com aquelas que Matty lhe narrou sobre o homem da cidade.

A desconfiança inicial é que estejam diante de um surto de peste bubônica. Mas algo não se encaixa na história para Sherlock, que então se mete numa enrascada atrás da outra tentando descobrir a verdade e escapando da morte sempre por um triz.

Ele é apenas um garoto – brilhante, sem dúvida – mas um garoto. Assim é que age de forma impulsiva, por vezes sem sequer ter consciência de seus atos (na boa, Sherlock, não é muito esperto você catar o pozinho junto dos cadáveres que se acredita tenham morrido por conta da peste. Tipo, já ouviu falar em luvas? E possibilidade de contágio?) – por duas ou três vezes, sua lógica quase o levou a ser morto.

A idéia de Nuvem da Morte está bem na tradição das histórias de Conan Doyle, onde um acontecimento absolutamente bizarro (a liga dos cabeça vermelhas ou os bustos de Napoleão) acaba por dar lugar a explicações totalmente prosaicas – ou pouco mais que prosaicas, considerando o plano totalmente maluco do grande vilão da história, que parece ter saído direto de um filme de terror: o Barão Maupertuis.

Há algo de muito exagerado no vilão e em seus planos – mas vou dar o desconto de que se trata de um livro escrito para o público infanto-juvenil e que um bocado de ação além de queimar neurônios é necessário.

Além disso, Lane sabe o seu latim. Pelo que já vi de seus títulos, todos eles são citados no canon como casos resolvidos – o Barão Maupertuis, por exemplo, é mencionado no início de O Enigma Reigate, cujas maquinações levam Holmes a um tal estado de exaustão que Watson tem de carregá-lo para uma temporada no campo.

Francamente, mal posso esperar para descobrir afinal do que se trata a história do Rato Gigante de Sumatra, caso que Holmes dizia o mundo não estar suficientemente preparado para ouvir.

Engraçado é que passei o volume inteiro achando que estava faltando alguma coisa para chegar ao final e me dar conta que meu problema era o vazio deixado pela ausência de Watson. Na minha cabeça, Holmes não está completo sem o bom doutor. Mas, deixando essa sensação de lado, o livro me agradou bastante. A imagem que Lane criou para Sherlock antes de Mr. Holmes é bastante crível - é ali que ele começa a dar os primeiros passos rumo à lenda que se tornaria anos depois.

Toca esperar pelo próximo agora. No segundo volume, temos a temível sangue-suga vermelha mencionada em O Pincenê Dourado. Quero só ver no que isso vai dar...



A Coruja


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11 comentários:

  1. O RATO GIGANTE DA SUMATRA?!?!?! CORRAM POR SUAS VIDAS!!!

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    1. Desculpa, Dé, eu me esqueci... o que mesmo foi que contasse do rato gigante de sumatra?

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  2. Sabe o que eu queria mesmo? Uma história em que o personagem principal fosse Moriarty! Não sei se ele aparece muito nos livros, ou se tou muito viciado na série da BBC, mas não seria super? :D

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    1. Levi, somos dois. Eu estou numa crise de abstinência triste com o fim da segunda temporada - cheguei ao ponto em que fui assistir "The Great Mouse Detective" - e reconheci Moriarty roubando as jóias da coroa num número musical do Professor Ratatão (oh, céus, isso é muito bizarro...).

      Eu era totalmente a favor de ver a história do ponto de vista do Moriarty! Tenho lido uma série de 'pastiches', sequels e homenagens ao Sherlock, mas ainda não me deparei com nada do ponto de vista do Arqui-rival de nosso detetive favorito.

      Se encontrares algo, me avise. E se eu encontrar, pode ter certeza que vai aparecer por aqui no Coruja ;)

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    2. E não é que encontrei um monte de livros com as histórias do Holmes contadas do ponto de vista do Moriarty? Na verdade, encontrei uma inteira vertente de livros inspirados nos contos do Doyle... Consegui pegar "The Hound of the D'Urbervilles", de Kim Newman e irei ler e resenhar para meu especial Sherlockiano ;)

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    3. Iei! haha. Eu tinha lido um livro de Sherlock Holmes antes de assistir à série, e odiei, depois li outro pra comparar, e odiei também. Mas com certeza vou ler esse, até porque é de outro autor. :P

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    4. Quais foram os livros que você leu, Levi?

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    5. Primeiro foi O Cão dos Baskervilles, que eu achei meio chatinho. Depois foi O Mistério do Vale Boscombe e outras histórias e Um Estudo em Vermelho. É claro que eu fiquei impressionado com os finais, mas eu fiquei mais impressionado ainda como o autor muda completamente o rumo da história sem deixar margem para o leitor descobrir as coisas. É como se no final ele dissesse: "Há, te peguei, viu como eu sou esperto?". Por isso não gostei muito, embora a série seja... Uau. Sei lá, acho que não tem muita diferença com os livros, mas eu prefiro.

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    6. O Doyle realmente dá umas viradas violentas na história... eu nunca consigo descobrir o culpado XD Ou não conseguia, porque agora só pratico releituras... mas acho que é uma questão de ritmo você preferir a série aos livros - na TV é mais rápido, tem mais ação e mais explosões... e as interpretações impecáveis do Cumberbatch e do Freeman (vou assistir "O Hobbit" pensando que Bilbo é Doutor Watson e esperando o Smaug usar cachecol).

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  3. Até amanhã venho aqui pra colocar minha impressões sobre o livro.

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