24 de março de 2012

Do Gênesis ao Apocalipse: A Saga de Ramsés


Após termos assistido o começo do mundo e acompanhado o nascimento do primeiro herói e das primeiras cidades – o início da civilização ocidental – vamos hoje visitar o Império Egípcio e dar uma olhada na vida de um dos meus governantes/personagens históricos favoritos! Preparem-se e apertem os cintos, porque hoje vamos conhecer o grande Faraó do Baixo e Alto Egito, Ramsés II, o Grande.





Ao completar 14 anos, Ramsés, já com a estatura de um adulto, encontrara o pai pela primeira vez.

Até então tinha sido educado no palácio por um preceptor, incumbido de ensiná-lo a tornar-se um homem de qualidade que, por ser filho do rei, passaria dias felizes ocupando um alto cargo. Mas Sethi arrancara-o da aula de hieróglifos e o conduzira para campo aberto, longe de qualquer aldeia. Nem uma palavra fora pronunciada.

No local onde a vegetação se tornara excessivamente densa, o rei e o filho apearam do carro puxado por dois cavalos e penetraram na mata fechada. Atravessado o obstáculo, tinham desembocado no território do touro.

Qual era mais assustador, o animal selvagem ou o Faraó? Tanto um quanto o outro desprendiam uma força que Ramsés sentia-se incapaz de dominar. Os historiadores sempre afirmaram ser o touro um animal celestial, animado pelo fogo do outro mundo, e que o faraó confraternizava com os deuses. Apesar da sua elevada estatura, da sua robustez e da sua recusa ao medo, o jovem sentia-se apanhado entre duas forças quase cúmplices.

- Ele descobriu-me - disse ao pai, com uma voz que tentava manter firme.

- Tanto melhor.

As duas primeiras palavras proferidas pelo pai soaram como uma condenação.

- Ele é enorme...

- E você, o que é?

A pergunta surpreendeu Ramsés. Com a pata dianteira esquerda, o touro escavou furiosamente o solo; garças-reais levantaram vôo, como se abandonassem o campo de batalha.

- Você é um covarde ou o filho de um rei?
Acho que já contei essa anedota, mas vou relembrá-la assim mesmo... À época em que conheci essa coleção, ela ainda estava sendo publicada. Devo ter passado uns dois anos esperando até chegar ao final, numa época em que eu tinha de esperar até meu aniversário ou natal para ganhar livros, em vez de comprá-los na pré-venda em inglês com seis meses de antecedência, como faço hoje em dia (ai, meu deus...).

O caso é que dois anos e cinco livros depois, ao chegar ao final da história e da vida de Ramsés II – numa existência admirável e repleta de reviravoltas – tive uma crise de choro que chegou ao ponto de assustar minha mãe, que achou que eu estava passando mal.

A idéia da saga criada por Christian Jacq era mostrar Ramsés de adolescente, ainda bastante imaturo, dando os primeiros passos rumo ao trono que viria a ocupar por mais de sessenta anos – um dos reinados mais longos da história dos faraós – até a velhice quase tranqüila após uma vida inteira de batalhas, intrigas e traições.

Claro que Jacq romanceou bastante a vida de Ramsés... Independente disso, porém, ele conseguiu formar um risco e vasto painel social da época, nos levando dos canteiros de obras de inúmeros templos (e uma inteira cidade) até os rituais mais secretos, os Altos Mistérios conduzidos pelos sacerdotes para a continuidade do Império. Da intimidade da família real à casa dos pedreiros que ajudaram a erguer as magníficas obras que marcam o reinado de Ramsés, ele nos leva a conhecer um pouco de todos os estratos sociais.

Isso por si já valeria a leitura dos livros. Mas há muito mais... Há a amizade fiel dos companheiros de juventude – Setaou, Ameni, Acha e Moisés, todos peças importantes no jogo para conservação do poder do futuro rei -, o romance com Nefertari, para quem ele construiu o templo de Abu Simbel; e as absolutamente fantásticas cenas de batalha – com destaque para Kadesh, é claro.

Há intrigas pelo poder, tentativas de assassinato, revolução, religião – e é interessante a forma como Moisés evolui até se transformar de melhor amigo do jovem Ramsés em seu inimigo mais acirrado por causa da ‘heresia’ de Aquenáton – há especulações que o culto a Áton teria sido a primeira religião monoteísta, base assim para a crença judaica.

É espantoso, a se considerar o tamanho da obra – por baixo, deve dar umas duas mil e tantas páginas – que ela não seja, nem de longe, cansativa ou repetitiva. Ramsés viveu a vida ao máximo – ao menos no romance de Jacq – intenso e passional em todos os momentos. Vale à pena conhecê-lo, viver a vida que ele viveu (ou poderia ter vivido) mais de três mil anos atrás – uma época em que homens alcançavam a estatura de deuses e continuavam inteiramente humanos.



A Coruja


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4 comentários:

  1. A saga de Ramsés de Jacq é uma delícia. Eu os li aos poucos, também, e era um prazer aguardar pelo próximo volume.

    Ah, Setaou... (enorme suspiro)

    Entendo sua crise de choro ao final do último livro, Lulu; ainda que eu não tenha chorado, me senti repentinamente sozinha, como se tivesse sido expulsa daquele Egito fantástico no qual estivera vivendo feliz até então.

    Porque, quando o último livro termina, a vontade que dá é de arrumar as malas, pular dentro da próxima Máquina do Tempo disponível e passar o resto dos dias no Egito de Ramsés II...

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    1. Concordo completamente, Régis... É uma série fantástica e o Ramsés do livro é um personagem tão absolutamente humano e REAL... Na verdade, todos os personagens da história são reais e você passa tanto tempo com eles que eles se tornam reais para ti... O Jacq foi incrível nesses livros...

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  2. Li esta série faz um tempo, e está entre meus favoritos. Lembro que um dos meus personagens favoritos, não me lembro o nome dele, um cara meio bon vivant e que teve um tão triste... Adorei o A Batalha de Kadesh, foi o livro da série que fiquei mais com vontade de saber o que acontecia em seguida.
    Não chorei no quinto livro, mas quando a Nefertari morre, no fim do 4° livro... foi o momento mais triste pra mim!!

    Lembro também de Menelau voltando da Guerra de Tróia e passando brevemente pelas terras do Egito!

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    1. Meu choro foi mais como uma... catarse. À época em que li pela primeira vez Ramsés, ele ainda estava sendo lançado e eu esperava com ansiedade cada novo volume... fora que na época eu não tinha nem mesada, era criança de tudo, só recebia livros de presente de aniversário e natal, de forma que tinha de esperar meses para poder pegar o próximo... Foram quase três anos para completar a saga, lendo e relendo e me emocionando tudo de novo...

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