18 de fevereiro de 2012

Do Gênesis ao Apocalipse: A Epopéia de Gilgamesh



Na segunda parada de nossa viagem no tempo literária, vamos agora dar uma olhada no berço da civilização – o lugar onde tudo começou, se formos levar a sério os estudos medievais sobre a localização do Jardim do Éden. Ali onde apareceram as primeiras cidades, nas margens férteis entre dois rios que deram ao mundo o arquétipo primeiro de todos os heróis.

Eu lhes apresento... Gilgamesh.



Proclamarei ao mundo os feitos de Gilgamesh. Eis o homem para quem todas as coisas eram conhecidas; eis o rei que percorreu as nações do mundo. Ele era sábio, ele viu coisas misteriosas e conheceu segredos. Ele nos trouxe uma história dos dias que antecederam o dilúvio. Partiu numa longa jornada, causou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história.
As primeiras marcas de uma escrita apareceram na Mesopotâmia, por volta de 3.000 a.C. – os caracteres cuneiformes – e também as primeiras cidades e o primeiro conjunto de leis (o famoso Código de Hamurábi). Naquela região, entre o Tigre e o Eufrates, grandes impérios floresceram: Suméria, Babilônia, Assíria. E ali também viveu o protótipo de todos os heróis, Gilgamesh, protagonista daquela que se acredita ser a mais antiga história escrita.

É difícil, contudo, colocar uma data exata nela. Acredita-se, por meio de referências cruzadas entre documentos de vários povos da região que, mais que um herói mitológico, Gilgamesh tenha sido um personagem histórico real, rei dos sumérios, responsável pela construção da “Grande Muralha de Uruk”. Não obstante, o que chegou até nós foram versões posteriores da história, resgatadas das bibliotecas de Assurbanipal, rei dos ferozes assírios, como parte das escavações arqueológicas que se espalharam como praga em meados do século XIX (a era ‘romântica’ da arqueologia, quando tudo não passava de uma grande aventura e mais importante que cuidar do que era encontrado era mostrar os tesouros achados).

O poema começa com a descrição do herói, parte deus e parte homem – belo, forte, sábio e poderoso, Gilgamesh tem tanta energia e é tão intenso que seus súditos imploram aos deuses que lhes dêem alguém ou alguma coisa que possa controlar seu rei antes que esse os leve à exaustão e à ruína.

É em resposta a esse desejo que nasce Enkidu, o selvagem, a própria natureza personificada, aquele que corre com os animais e assusta caçadores e pastores do reino. O caso é levado ao rei, que ordena levem à mata uma meretriz para seduzir o selvagem.

A partir do momento em que se deita com a mulher, Enkidu perde sua ‘inocência’ (é a Queda, mais uma vez) e passa a ser repudiado pelos animais com que antes convivera. Sem alternativas, ele volta com a mulher para a cidade – sua história é a própria passagem do selvagem para o civilizado – e lá confronta Gilgamesh num duelo de mãos limpas.



Gilgamesh já o esperava – sonhara com ele até – e ansiava pela luta. Nenhum dos dois, contudo, é capaz de vencer o outro. Reconhecendo-se como iguais, os dois se tornam amigos inseparáveis, irmãos de alma, partindo juntos para conquistar novos territórios e enfrentando os próprios deuses – até que estes decidem que um deles deve morrer pelo pecado do orgulho.

O fim dessa amizade é também o início da angústia da mortalidade, quando partimos então até Utnapishtim, sobrevivente do grande Dilúvio e único humano a quem os deuses deram a graça da imortalidade.

Gilgamesh, mais humano do que deus, em todos os sentidos maior que os homens, exceto por compartilhar com eles a mortalidade é o arquétipo em que se basearam de Homero a George Lucas e sua história é a primeira jornada do herói – jornada em busca de conhecimento, cujo prêmio, mais que a vida eterna, é o próprio surgimento de uma sociedade organizada, civilizada.

Antes de todos os outros, Gilgamesh foi quem deu o primeiro passo. Então, anets de nos deixar sua inestimável herança, “exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história”.


A Coruja


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2 comentários:

  1. Aff. A epopéia de Gilgamesh eu li muito nova, quando minha atenção se voltou para mitologia. Tava tão cansada de só ouvir falar e ler sobre mitologia greco-romana que essa obra foi uma brisa ar fresco no meu cérebro na época (foi Gilgamesh que me fez cursar História, por sinal). Muito boa indicação :)

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  2. Eu li A Epopeia de Gilgamesh enquanto ainda morava em São Paulo (uns 7 anos atrás). Ia todo dia no Centro Cultural até terminar de ler o bendito. Mas hoje tenho o meu próprio exemplar, que ganhei de presente ^_^.

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