28 de fevereiro de 2012

Clube do Livro (Fevereiro) - O Mistério do Cinco Estrelas



A porta abriu pouco e lentamente, o suficiente apenas para mostrar o rosto do hóspede, O barão muito pálido, como um doente, teimava em sorrir, mas não devia estar bem porque suas mãos, trêmulas, deixaram cair os jornais. Leo abaixou-se para apanhá-los quando viu, sob a cama, dois pés calçados, apontando para a porta. Pegou os jornais e ao levantar-se notou que havia uma mancha vermelha, provavelmente de sangue, no robe do gordo do 222.
O tema desse mês no Clube do Livro foi cortesia da Flavinha e faz o estilo ‘vintage’, segundo a Mi: livros que marcaram nossas infâncias. Houve muito bafafá quando começaram as indicações, todo mundo jurava que Harry Potter e a Pedra Filosofal levaria por unanimidade, mas por falta de tempo (concordamos todos que se começássemos a ler o primeiro, acabaríamos todos querendo ir até o sétimo e o tempo anda currrrto), acabou-se que numa empolgação de criança em frente à bandeja de brigadeiros, ganhou de lavada O Mistério do Cinco Estrelas.


Foi um resultado bastante surpreendente, mas todo mundo adorou. Fevereiro foi assim mês de saudosismo puro – afinal de contas, estávamos desenterrando do baú um dos clássicos de nossas infâncias – aliás, toda a coleção vaga-lume, à qual o título mais votado pertence, é um capítulo importante na história de nós, leitores.

Antes que eu comece a me derramar aqui em lágrimas melancólicas, vamos ao que realmente interessa.

Tenho a impressão de que foi Marcos Rey quem me apresentou à literatura policial. Não sei bem quando foi que o li pela primeira vez; mais de uma década já deve me separar de tal evento – mas ele certamente foi um dos primeiros na minha longa lista de retiradas da biblioteca da escola. O engraçado é que, depois de todo esse tempo, quando comecei a ler, fui assaltada por um sentimento enorme de familiaridade – reencontrar os personagens de O Mistério do Cinco Estrelas foi como dar de cara com um amigo muito querido com quem você perdeu contato há muito.

Engraçado como quase que mais importante que o próprio enredo desse mês, foi a nostalgia que a leitura despertou e como cada página virada me trazia cenas que não eram da história, mas da minha própria convivência, dos tempos e amigos do colégio, das brincadeiras e maluquices...

Na verdade, por essa época, eu estava escrevendo meus primeiros contos, todos histórias policiais sanguinolentas, nas quais eu desenhava as pocinhas de sangue e até a detetive morria e voltava de além-túmulo como fantasma para continuar a investigação... Qualquer dia desses farei uma limpa nos armários da estante para descobrir se esses manuscritos sobreviveram...

E o melhor de tudo foi perceber que o livro envelheceu bem; continua, aliás, atual (da discussão sobre corrupção até a parte de acessibilidade). Que eu o indicaria hoje, aos vinte e cinco, com a mesma empolgação de quando o li, sei lá, aos dez. Porque ele ainda me fez rir, ainda fez eu me indignar e me empolgar com seus heróis; torcer por eles, torcer para que acreditem neles, até chegar o triunfante isqueiro no final.

É estranho que eu me sinta de alma lavada pela resposta que Leo dá no final ao Barão?

Mas, enfim, se você não teve infância e não leu os paradidáticos da coleção vaga-lume, ou se leu, mas não chegou nesse título, eis o resumo da ópera: Leo é um garoto de dezesseis anos, descendente de italianos e morador do Bixiga (sempre que se fala no Bixiga eu penso em massas e pizza e fico com a boca cheia d’água...) e trabalha como mensageiro num hotel cinco estrelas até seus olhos verem demais, o que acaba fazendo com que ele entre numa confusão envolvendo quadrilhas internacionais, contrabando, tráfico de drogas e um chefão do crime que posa de filantropo e não perde a pose nem quando é pego de calças na mão num chá beneficente.

Divertido, inteligente, ágil, O Mistério do Cinco Estrelas é daqueles livros que coloco na lista de culpados por me fazer gostar de ler. Que as novas gerações não o percam de vista: Marcos Rey continua criminosamente delicioso mesmo depois de mais de três décadas de sua publicação.



A Coruja

NOTÍCIA EXTRAORDINÁRIA: pesquisando para colocar a capa do livro aqui, descobri que O Mistério do Cinco Estrelas teve os direitos comprados PARA VIRAR FILME! Vejam a notícia aqui.


____________________________________

 

3 comentários:

  1. Esse livro foi um dos paradidáticos quando eu tava na quinta série! Ou na sexta. Provavelmente uma das duas, tenho quase certeza... Foi o ano em que, apesar de eu só ter uma edição do outro livro paradidático (não lembro se era O Rapto do Garoto de Ouro ou A Mina de Ouro), eu acabei carregando o de um colega para ler na hora do intervalo, ou coisa assim...

    Bons tempos -_-

    A coleção Vaga-Lume era mesmo genial, acho que até hoje tem títulos sendo utilizados como paradidáticos... Uma escolha muito boa que vocês fizeram! ;D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. HUAHUAHUAHUA!!!! DESCOBRI AFINAL COMO FAZER PARA RESPONDER OS COMENTÁRIOS DIRETO NO BLOGGER! QUE ALEGRIA!

      Falta só saber se você vai receber isso XD Me avisa, se sim, Rafa?

      Sim, a coleção vaga-lume era maravilhosa. Sério que ainda usam ela como paradidático? Isso é bom. Significa que ainda existe esperança para as novas gerações XD

      Abraços!

      Excluir
  2. Coruja, tenho duas perguntas a fazer: primeira, você sabe se tem muitos livros literários na ufpe em inglês? Estou com 24 anos e tenho urgência de aprender mais sobre esse idioma, do qual eu só tenho um vocabulário intermediário.

    Segundo: você deu algumas dicas de sites para comprar livros, nunca comprei livro de sites estrangeiros, como fica o cambio? Eles convertem diretamente do seu cartão ou coisa do tipo?

    E antes que você se assuste com a primeira pergunta, sei que você estudou na federal porque acho que faz muito tempo olhei seu orkut ou algo do tipo.

    Não visito muito seu blog porque me dá medo pela quantidade assombrosa de livros que você lê, minha leitura é bastante lenta, daí vendo alguém me assusta um pouco. Logo, procuro não me comparar muito.

    Se quiser responder no meu blog fique a vontade, atualizo pouco, mas olho os comentários.

    Obs.: já comprasse alguma coisa na amazon? Como é a compra lá? Bjs

    ResponderExcluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog