17 de junho de 2010

Persuasão: uma análise (Parte II)




Ok, o que eu tenho para dizer sobre Frederick... bem, primeiro, que, embora Mr. Darcy seja uma quase unanimidade, meu protagonista favorito das novelas de Austen é o capitão. Afinal, ele usa uniforme (kkkkkkkkkkkkkkk), e além de tudo, ele é um pirata, e eu tenho uma certa queda por piratas – não os de verdade, é claro, aqueles que passavam meses no mar sem tomar banho e cheiravam ao "delicioso" perfume de rum e suor e sujeira.

Não, eu prefiro os piratas ficcionais, muito obrigada. Aqueles que não cheiram. Ou, se cheiram, pelo menos é só na descrição literária.


Segundo... por mais apaixonante que Wentworth seja, eu não vou negar que ele é, ao menos no princípio da história, um bastardo egoísta que não sabe o que quer e é deliberadamente cruel.

Se fosse uma história passada no dias de hoje, eu realmente guardaria um imenso rancor da Anne por ter desmanchado o noivado deles. Eu diria que ela se deixava influenciar muito facilmente e que ela tinha a escolha de ficar com ele. À luz da época em que a história se passa, contudo, as coisas não são tão simples.

Eu já disse antes que Anne e Wentworth são dos casais mais passionais de Austen e que essa irracionalidade – que é um componente da paixão – talvez tenha sido um dos motivos pelos quais Lady Russell aconselhou Anne a deixar Frederick partir. Mas, além disso, temos a questão de classe e de dinheiro também.

É muito fácil se deixar levar por noções românticas, de que não importam quais os obstáculos que se estabeleçam, o amor supera tudo.

Há vários cenários como resultado do que aconteceria se Anne tivesse continuado com o compromisso. Considerando que ela mesma não tinha uma herança ou um dote; e que Frederick muito menos tinha onde cair morto, não havia como eles se casarem de imediato.

Se ainda assim eles tivessem decidido que iam sobreviver de beijos e abraços, o que aconteceria quando Anne se visse sozinha, em terra, enquanto Frederick ia para a guerra? Considere ainda que não existiam carros, o sistema de correios era precário, às vezes os navios passavam meses estacionados no mar e incomunicáveis por causa de uma calmaria...

Alguém pode talvez argumentar que Sofia Croft, a irmã de Frederick, seguiu seu marido à bordo. Mas aí está: o próprio Wentworth diz que “nunca admitiria, de bom grado, senhoras a bordo de um navio seu, exceto para um baile ou uma visita de algumas horas.” E uma coisa é levar a esposa a bordo quando se está viajando em negócios da Companhia das Índias Ocidentais; outra bem diferente é carregar a esposa no meio de uma guerra declarada para um dos principais campos de combate.

Então, Frederick não levaria Anne para viver com ele num navio. Tudo bem, eles poderiam então postergar o casamento até que ele tivesse juntado dinheiro suficiente para poder comprar uma casa e instalar a esposa com um mínimo de conforto.

Já ouviram o ditado “longe dos olhos, longe do coração”? Se já, vocês provavelmente são capazes de entender porque um noivado longo, longuíssimo, sem formas de comunicação entre os dois amantes, dois jovens e bastante inexperientes amantes; sem perspectivas certas além de uma vaga esperança, seria um ponto negativo no livro de Lady Russell.

Dessa forma, pensando dentro das características da época, a cautela da decisão de Anne talvez tenha sido sua salvação. Bem verdade que Frederick teve uma imensa sorte e quase que em sua primeira missão comissionada, já começou a fazer dinheiro... mas e se ele não tivesse conseguido? Ou se ele tivesse morrido no mar enquanto Anne esperava por ele? Ou se Anne, como Fanny Harville, tivesse morrido enquanto Frederick estava longe?

O quão justo é você pedir que uma pessoa o espere por anos a fim, ainda que quase todas as apostas estejam contra você? E o quão justo é você pedir que a pessoa que você supostamente ama escolha entre você e a única outra criatura em todo mundo que parece se importar com ela?

Então, como eu disse, Frederick foi um bastardo egoísta, incapaz de realmente pensar em Anne – na verdade, o tempo todo, ele estava pensando apenas em si mesmo.

É muito fácil para Louisa dizer que seguiria até o fim e uma vez tendo feito uma decisão, ela não arredaria pé. Muito fácil dizer que fazemos isso ou aquilo enquanto o isso e aquilo são apenas hipóteses.

Eu acho que Anne perdoou Frederick muito fácil depois de tudo o que ele aprontou – mais uma vez, a paixão falou mais alto. Todas as vezes em que ele falava besteira sobre o que queria numa esposa, o que queria numa mulher – ou ainda, quando flertava (ou ao menos aceitava o flerte) com as duas irmãs Musgrove, era sempre quando Anne estava por perto.

Se isso não era uma aberta provocação, eu não sei mais o que poderia ser.

O interessante é que Frederick não se decide sobre o que quer. Ele ama Anne, e ama nela suas maneiras, sua gentileza, pela modesta virtude, mas deseja que ela se revolte contra as mesmas tradições que fazem dela ser quem ela é – e deseja que ela se revolte apenas quando lhe é conveniente, lembrando que ele não deseja uma esposa que o siga para o mar.

Após oito anos, Frederick continua um homem zangado, emocionalmente confuso e que se recusa a ver a razão.

Nenhum dos dois protagonistas é perfeito e, a considerar todas essas “qualidades” de ambos, eu diria que, se tivessem ficado juntos oito anos antes, eles provavelmente não teriam sido tão felizes quanto o foram quando se reencontraram oito anos depois.

Isso porque, ao longo da história, Frederick começa finalmente a enxergar os erros de seus próprios atos – e isso o faz particularmente irresistível, ao menos, para mim: por mais rígido em seus princípios e orgulhoso que seja nosso caro capitão, ele sabe reconhecer quando errou; ele sabe pedir perdão e, mesmo depois de oito anos de solidão e amargura pela suposta “traição” de Anne, ele ainda é capaz de ter esperança e coragem para se arriscar de novo.

E, se até então eu tivesse conseguido me manter inconquistável, depois da carta que ele escreve para Anne, o que mais me restava além de cair de amores por esse personagem?

"Já não consigo mais ouvir em silêncio. Tenho de lhe falar pelos meios ao meu alcance. Tu transpassa-me a alma. Sou parte agonia e parte esperança. Não me diga que é demasiado tarde, que sentimentos tão preciosos morreram para sempre. Eu volto a me oferecer a ti, com um coração que é ainda mais teu do que quando o despedaçaste oito anos e meio atrás. Não diga que o homem esquece mais depressa que a mulher, que o amor dele morre mais cedo. Eu não amei ninguém, se não a ti. Posso ter sido injusto, posso ter sido fraco e rancoroso, mas nunca inconstante. Vim a Bath unicamente por tua causa. Os meus pensamentos e planos são todos para ti. Não reparaste nisso? Não percebeste dos meus desejos? Se eu tivesse conseguido ler os teus sentimentos, como creio que deve ter decifrado os meus, não teria esperado estes dez dias. Mal consigo escrever. Estou a cada instante ouvindo coisas que me emocionam. Tu abaixas a voz, mas posso distinguir tons nessa voz que aos outros passariam despercebidos. Criatura demasiada boa, demasiada pura! Faz-nos, de fato, justiça, ao acreditar que os homens são capazes de um verdadeiro afeto e uma verdadeira constância. Creia que tal afeto é mais do que fervoroso e mais do que constante em

F. W.

Tenho de ir, incerto de meu futuro; mas voltarei, ou seguirei o teu grupo, logo que possível. Uma palavra, um olhar será o suficiente para decidir se entrarei na casa de teu pai esta noite, ou nunca.

Ambos os personagens se redimem de suas faltas, oito anos atrás ao serem capazes de se perdoarem e perdoarem também aqueles envolvidos em sua separação – ainda que eu duvide muito que Wentworth tivesse muita paciência para com o sogro e as cunhadas – encontrando-se assim no “meio do caminho”: Anne, a doce, gentil, obediente Anne, desafiando convenções e buscando deliberadamente seu capitão em qualquer oportunidade que o destino lhe ofereça e Frederick, o firme, orgulhoso, o convicto lutando e aceitando uma segunda chance, estendendo a mão.

Ambos assumem riscos, mas, dessa vez, ambos têm exata noção do que estarão perdendo se deixarem a oportunidade escapar mais uma vez. E apesar de todo o tempo, da decepção e da amargura, os sentimentos que nutriam um pelo outro jamais esmoreceram – mesmo quando parecia tarde demais, ambos permaneceram fiéis àquilo que sentiam.

Ok, falta só mais uma parte para terminar essa análise. Vejo vocês no sábado... ou semana que vem (amanhã é dia de na sua estante).

A Coruja


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