8 de maio de 2010

Para ler: O dragão de sua majestade

- Peço perdão, não o fiz de propósito. Meu nome é Will Laurence; qual é o seu?

Nenhuma disciplina poderia ter evitado o murmúrio de choque que atravessou o convés. O dragonete não pareceu percebê-lo, mas pensou na pergunta por vários momentos, e finalmente disse, com ar insatisfeito.

- Eu não tenho um nome.

Laurence tinha folheado os livros de Pollit o suficiente para saber como deveria responder. Ele perguntou, formalmente:

- Eu poderia lhe dar um?

A criatura, revelando uma voz definitivamente masculina, examinou o capitão novamente, fazendo uma pausa para coçar um ponto aparentemente imaculado nas costas, e então disse com indiferença nada convincente.

- Por favor.

E então Laurence teve um branco completo. Ele não havia realmente pensado no processo de arreiamento, além de decidir que faria seu melhor para garantir que isso acontecesse, e não fazia idéia de qual seria um nome apropriado a um dragão. Depois de um momento terrível de pânico, sua mente, de alguma forma, conectou dragão e navio, e o capitão deixou escapar:

- Temeraire – pensando no nobre e grande navio de guerra que vira ser batizado, muitos anos atrás, com o mesmo movimento elegante de deslizamento.
De todas as criaturas mitológicas que conheço, o dragão sempre foi o meu favorito. É interessante que, no Ocidente, ele seja usualmente relacionado ao demônio e ao Inferno (leiam o apocalipse e entenderão...), que parece encará-lo como um primo super-crescido da serpente que tentou Eva. Nisso, prefiro a mitologia oriental, que o compreende como a criatura mais nobre de todas.

Assim, não posso ver um livro que tenha dragões em algum ponto da história sem me interessar. E foi por isso que puxei O dragão de sua majestade da estante quando passei pela Cultura hoje; escarrapachando-me no chão para começar a ler. Quando percebi a hora – já passara do tempo de voltar para casa – eu estava na página 140 e absolutamente elétrica para continuar lendo.

Não tive outra alternativa além de caminhar até o caixa e dar mais um golpe literário nas minhas finanças.

Fazia muito tempo que eu não pegava um livro assim a esmo, sem ler sequer a contracapa, e me sentia tão... céus, eu não sei bem como explicar essa sensação – a sensação de dar de cara com uma história que você simplesmente não quer chegar ao final e ao mesmo tempo quer pular para a última página e saber o que acontecerá a seguir; uma história que te faz suspender o fôlego e o coração acelerar ridiculamente.

A última vez que isso me aconteceu foi quando li Jonathan Strange & Mr. Norrell e, vejam que coisa... ambos são uma mistura de realidade histórica alternativa e fantasia fantástica e ambos são histórias de passadas ao tempo das Guerras Napoleônicas.

O dragão de sua majestade começa a termina com uma batalha capitaneada por Laurence: de primeira, como capitão de uma fragata da Marinha Real Inglesa, batalhando contra uma solitária nau francesa; de última, sobre os ombros de Temeraire, um dragão, a serviço das Forças Aéreas Britânicas.

Sim, isso mesmo que você leu, Forças Aéreas nas Guerras Napoleônicas.

No mundo criado por Naomi Novik, os dragões são seres dotas de consciência e capacidade de falar; são inteligentes, alguns mesmo capazes de discutir estratégia militar e organizar manobras, e extremamente fiéis – isso, claro, se forem corretamente adestrados.

Quando um dragão nasce, ocorre uma “cerimônia” de arreiamento. Aquele que tiver sido designado para ser o aviador daquele dragão deve se aproximar, dar-lhe um nome e colocar-lhe os arreios antes de alimentá-lo – se um dragão se alimenta antes de ser arreado, ele se tornará selvagem.

Em termos gerais, isso faz lembrar a série Ciclo da Herança, de Christopher Paolini... Mas eu confesso que Eragon não conseguiu me convencer muito, ao contrário de Temeraire e Laurence.

Na verdade, se eu fosse compará-los a algum personagem... Não sei a quem comparar Temeraire, mas Laurence me faz lembrar Jack Aubrey, de Mestre dos Mares...

As batalhas são simplesmente eletrizantes, de segurar o fôlego e arregalar os olhos e os dois personagens principais são verdadeiramente cativantes. É interessante ver a evolução da relação de Laurence e Temeraire, especialmente a se considerar como, no princípio, Laurence não queria aquela responsabilidade para si.

Ao final das contas, a existência de um aviador é uma existência solitária – por óbvio, os dragões não podem viver em grandes cidades e eles estão sempre na primeira fileira dos combates; um aviador, mesmo que se decidisse a casar, estaria condenando seu companheiro a uma vida de eternas esperas e muitos poucos prazeres.

Apesar disso, Laurence vai se afeiçoar a Temeraire, a ponto de ter no dragão seu melhor amigo e companheiro, sentimentos esses recíprocos.

Interessante também é ver eles lidarem com os outros capitães e as equipes que fazem o staff de cada dragão – como navios, os dragões também levam muitos oficiais a bordo, incluindo tenentes, cadetes, fuzileiros. Eu gosto especialmente do Primeiro-Tenente Granby, apesar de seu começo pouco promissor.

Foi divulgado que Peter Jackson estaria interessado em adquirir os direitos do livro para transformá-lo numa minissérie, mas isso foi em 2006 e até onde eu consegui pesquisar, não há nada de certo no assunto (embora exista uma página no IMDB prevendo o filme para 2011). Eu, particularmente, adoraria assistir isso – fico imaginando como seria transportada para a tela a Batalha de Dover, com dragões transportando os exércitos franceses em barcos gigantes por cima das cabeças do bloqueio naval no Canal da Mancha.

O dragão de sua majestade é o primeiro livro de uma série de nove previstos – seis dos quais já escritos. Depois de terminar o primeiro, eu não consegui resistir a ir atrás dos demais (não conseguiria esperar até que eles fossem traduzidos para o português) e aproveitei para já encomendar também todos os livros já disponíveis da série The Chronicles of the Imaginarium Geographica, de James A. Owens, que segue um estilo também parecido e tem... DRAGÕES... além de Tolkien e Lewis como personagens.

Infelizmente, minha encomenda só chegará lá para meio de julho, então, até lá, tenho de esperar... Mas, quando eles chegarem aqui, certamente escreverei sobre o assunto para vocês.

De toda forma, já dei uma olhada em alguns spoilers e agora que sei que Wellington está me esperando em algum ponto futuro, não tem como deixar de ler.

Pois é, eu tenho uma paixonite platônica pelo Duque de Wellington, o que só deixa mas óbvio que nasci na época errada. Mas podia ser pior... eu podia ser apaixonada pelo Almirante Nelson...

Ele vem em segundo...

Enfim, a edição em português foi lançada pela Galera Record acho que mês passado. A única coisa que não gostei muito foi a capa; a edição inglesa e americana é muito melhor; a brasileira dando a velha impressão de ser um infanto-juvenil (sério, qual o problema desse povo achando que ficção fantástica tem de ficar na seção infantil da livraria???).

Para quem quiser saber mais sobre a autora e ter acesso a alguns extras, eu recomendo dar uma olhada no site oficial de Temeraire. Ainda não tive tempo suficiente de explorá-lo a contento (uma vez que ainda estou vibrando com o final do livro), mas acho que tem uns contos inéditos em alguma parte por ali...

Em suma, recomendo, recomendo, recomendo, recomendo... Vai para minha estante ficar em lugar de honra: entre Tolkien, Gaiman, Pratchett, e Clarke. E esse é o maior elogio que eu poderia fazê-lo.

A Coruja


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3 comentários:

  1. Lulu e seus livros...
    eu não sou fã de dragões...mas amo essa coisa com livro sabe, qdo vc ve um na livraria e simplesmente não consegue tirar seus dedos de cima dele!...
    Enfim, esse livro parece ser bom, mas ja tem tantos na minha lista pra ler, q nao sei se terei como inclui-lo...mas quem sabe um dia!! hehehehe
    bjsss

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  2. Hmmmm, me convenceu! Vou lá na Fnac amanhã ver se acho ele (na seção de infanto-juvenis, hmpf)!

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  3. Droga... Justo quando eu decido que vou largar tudo pra ter dedicação exclusiva a minha mono, vc me aparece com isso? =P

    Pra me ganhar, esse livro só precisou de 2 coisas: os nomes "Dragão" e "Stephen King" na capa!

    Dragões também são, de longe, minha criatura mitológica favorita (em grande parte devido ao D&D), mas infelizmente o ocidente realmente não é muito generoso com a imagem que tem desses bichos.

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